O processo, de Franz Kafka, foi escrito entre 1914 e 1915, portanto há mais de um século. É uma história triste, de difícil leitura, que se passa em uma atmosfera pesada onde não há justiça nem esperança. Então por que estamos discutindo esse livro ainda hoje? Fácil: a boa literatura não tem prazo de validade. Poderia ter sido escrito há poucos meses, e a relevância seria igualmente indiscutível. Os temas são atemporais. O homem biológico, tal qual o conhecemos, existe há cerca de 300.000 anos, um espirro em termos geológicos. Nossa existência como indivíduos pode parecer importantíssima para nós e nossas famílias, mas - aqui vai um spoiler - para a humanidade, 70, 80 ou até 100 anos, não é. Já para um livro, 100 anos de sobrevida é praticamente imortalidade. O que é que Kafka sabia fazer para isso acontecer? Criou personagens ao mesmo tempo estranhos e familiares, usou uma linguagem desconcertantemente simples, e nos obrigou a olhar para a realidade e enxergar o absurdo.
Para começar, após receber a notícia de sua prisão quando estava esperando seu café da manhã na cama de sua pensão, Joseph K. não se transforma em outra pessoa de um momento para outro. Sua reação inicial não é de indignação furiosa, como poderia se esperar. Numa primeira fase, ele tenta vários argumentos contra os guardas que o aprisionam, mas é facilmente dissuadido a não prosseguir nesse caminho. Ele nega sua culpa - isto é o mínimo que qualquer um de nós faria - e insiste em sua inocência por muito tempo, mas só uma vez pergunta de que é acusado. Nessa questão, Gregor Samsa (Metamorfose) também reage de forma inusitada:
Ao despertar certa manhã de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado em sua cama em um inseto gigantesco.
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