Obrigado pela sua leitura! “No eros começam as responsabilidades”. Eis a grande lição filosófica da obra de Mark Lilla, autor de dois livros fundamentais para se entender o que ocorre agora no Brasil e no mundo — A mente imprudente: os intelectuais na atividade política e A mente naufragada: sobre a reação política. A frase acima é uma referência irônica a dois sujeitos que sempre notaram como óbvia a relação entre vida política e vida do espírito. O primeiro foi W.B. Yeats, que, com seu famoso bordão “nos sonhos começam as responsabilidades”, além de ser poeta, senador na Irlanda independente em 1922, era também ciente de que a confusão do parlamento era mais uma amostra daquele “fascínio pelo que é difícil” típico de quem gosta de se intrometer nos assuntos dos homens. O segundo foi ninguém menos que Platão, o filósofo a quem todos os filósofos posteriores devem se curvar, e que afirmava que o ser humano era dominado por uma paixão demoníaca — o eros — que o podia elevar às alturas ou, se não possuísse autodomínio suficiente, fazer com que se comportasse como o mais vil dos animais. Mark Lilla narra a tensão erótica que se impõe quando os intelectuais praticam duas coisas extremamente perigosas — e que sempre foram as preocupações de um Yeats ou de um Platão, ambos, por coincidência, possuídos por seus demônios autoritários. Tal tensão se manifesta no momento em que esses guardiães do “anseio pelo Belo” esquecem-se das suas responsabilidades concretas ao defenderem, direta ou indiretamente, tiranos de esquerda ou de direita, destruidores de vidas humanas — e também ao resolverem, justamente para permanecerem nessas realidades alternativas, enquadrar todo o curso da História em uma única corrente narrativa que reduziria a complexidade da nossa experiência neste mundo. Para Lilla — nascido em Detroit, em 1956, e discípulo de renomados professores como Daniel Bell e Irving Kristol —, tanto a vida política como a vida filosófica, o filósofo e o tirano, estão ligados pela força de eros, como se num “perverso truque da natureza”. É esta conexão secreta que dá sentido aos ensaios que contam as trágicas (e aparentemente díspares) histórias de Martin Heidegger, Hannah Arendt, Karl Jaspers, Carl Schmitt, Walter Benjamin, Alexandre Kojève, Michel Foucault e Jacques Derrida — todos personagens de A mente imprudente, indivíduos de pensamento seduzidos pela “filotirania” para justificar seus erros extremamente sofisticados. Na verdade, foram vítimas e, ao mesmo tempo, algozes daquilo que Eric Voegelin chamava de pleonexia — o desejo de poder, misturado ao desejo de conhecimento, que faz o filósofo cair na ilusão de que, por meio de suas ideias, pode transformar a Terra em uma “casa bem-arrumada”. Quinze anos depois de ter publicado A mente imprudente (lançado em 2001, dois dias antes do 11 de setembro), Lilla aprofundou-se nas características específicas deste drama com A mente naufragada (2016). Se, no livro anterior, a loucura de eros impulsionava a destruição lógica provocada por um pensamento rebuscado, agora a força demoníaca se aventurava sobre o modo como construímos as nossas narrativas históricas. Usando a imagem do rio Nilo, Lilla descreve a História como uma série de estuários que se dirigem para um único fim — o oceano. O naufrágio espiritual acontece quando o intelectual estreita o curso do rio em um único afluente e se preocupa somente com as ruínas de um passado inexistente, mas que, ainda assim, influenciará um futuro inatingível. A reação ideológica, algo comum às mentalidades de direita e de esquerda ansiosas pelo “novo tempo do mundo” (obrigado, Paulo Eduardo Arantes), vem justamente deste tipo de comportamento. Lilla não hesita em incluir aí grandes nomes desta tradição alternativa ao status quo acadêmico, como Franz Rosenzweig, Eric Voegelin e Leo Strauss, que, de uma forma ou de outra, sofriam da “nostalgia política”, igual a Dom Quixote. Contudo, ao contrário do que fazem outros intelectuais liberais que desprezam essa linha de reflexão (e dos quais Lilla é um integrante orgulhoso), o autor de A mente naufragada analisa esses “reacionários” com a mesma delicadeza que se dedicou aos “filotirânicos” em A mente imprudente. Seu intento é compreendê-los na sua tensão erótica, sem julgamento de caráter, e é dessa forma que, por exemplo, também consegue fazer excelentes introduções, para o leitor comum, às obras intrincadas de um Voegelin ou às de um Heidegger. O que Mark Lilla redescobriu de fato foram os princípios de uma filosofia política esquecida há muito tempo — e que nos afetam até hoje. Usando dos conceitos das mentalidades imprudente e naufragada, podemos examinar fenômenos recentes da política nacional e internacional — desde o “Make America Great Again” de Donald Trump (um exemplo clássico de “nostalgia reacionária”), passando pelo caso de “morde-e-assopra” entre Jair Bolsonaro e Olavo de Carvalho (a “imprudência” encarnada ora na retórica nacionalista, ora na retórica da “política da fé”), até chegarmos à pretensa sofisticação de um Roger Scruton ou de um John Gray, um pensador conservador e outro liberal, mas que mostram suas limitações espirituais ao não admitirem que nós podemos vencer a força demoníaca do eros por meio da consciência de nossa imortalidade (como provam os livros-síntese de cada um, respectivamente A alma do mundo e A alma da marionete). Nesta “busca pelo eros perdido”, Lilla pretende mostrar que fazer filosofia política no século XXI é, antes de tudo, aceitar as coisas como são — mesmo que isto implique admitir a verdadeira tragédia de nosso tempo: a de que estamos abandonados, sem guia para nos orientar, e que, como diria o poeta inglês Geoffrey Hill, “Deus é difícil, distante”, pois “as coisas [neste mundo] simplesmente acontecem”. Ter noção deste “desprendimento” – para usarmos um termo do grande náufrago avant la lettre, Mestre Eckhart – é fundamental se não quisermos cair nas ilusões “filotirânicas” do desejo de poder ou nas alucinações coletivas de ser o próximo Dom Quixote. Neste ponto, ressalte-se o detalhe de que Lilla não está preocupado somente com a perversão erótica dos intelectuais ocidentais. Para ele, uma das evidências mais explícitas da mente naufragada está no “islamismo radical”. Partindo de uma análise magistral do romance Submissão, de Michel Houellebecq, Lilla identifica, neste tipo de comportamento naufragado, a estrutura matriz da “nostalgia política” que domina os outros estratos da nossa sociedade. Em geral, o islamista quer restaurar uma Idade de Ouro que não tem como ser recuperada; e, ao saber disso, para escapar desta “ignorância” (jahiliyya), precisa impor sua visão de mundo como a única possível de ser realizada. Como, porém, a realidade se estabelece e o impede de avançar, optando pela violência política, com os ataques terroristas de praxe, prática que, em longo prazo, forja aos poucos uma “comunidade de sofrimento” que ocupará, quando menos se espera, todo o globo terrestre. Aqui, o Cavaleiro da Triste Figura anda de mãos dadas com o Califa Nostálgico. E, quando a imprudência e o naufrágio espiritual se encontram na vida política, o que temos é o pesadelo do qual tentamos despertar — o que James Joyce apelidava de “História”, mas que pode muito bem ser a nossa própria existência. Com seus livros precisos e elegantes, Mark Lilla nos orienta sobre como sobreviver neste caos que nos consome, sem perder de vista a esperança de que talvez a força benéfica do eros filosófico ajude-nos a assumir nossas verdadeiras responsabilidades. Quem quiser colaborar com o meu trabalho, além do valor da assinatura desta newsletter pessoal, pode me ajudar por meio do pix: martim.vasques@gmail.comE quem quiser apertar o botão abaixo só para fazer a minha felicidade - e manter essa newsletter de modo mais profissional, be my guest: E hoje à noite, por volta das 19h30, vou conversar com Bruno Magalhães e Lucas Mendes sobre o fato de que dois livros meus - A Poeira da Glória e A Tirania dos Especialistas - foram escolhidos entre a lista das 25 Obras Brasileiras Mais Relevantes Do Século 21, publicada pela Gazeta Do Povo. O link para assistir a conversa está aqui. Queridos leitores: Quando eu falo de vibeshift, falo na verdade de um processo que começou desde 2016, se aprofundou em 2018, foi sufocado em 2020 na época da COVID e se acelerou em 2022 com a popularização da IA. Há um nome específico para ele: “a revolta das elites contra a revolta do subsolo”. Os três cursos que produzi de forma independente confirmam este diagnóstico. O problema é que (quase) ninguém entendeu isso. E daí surge a confusão em que estamos metidos. Aqui, vejam um trecho de uma das aulas: Por exemplo: em RAÍZES (E CONSEQUÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO, eu analiso como as placas tectônicas da história do nosso país entraram em choque e como o sistema do Estado se tornou incapaz de permitir uma liberdade mínima para o cidadão. Já em ALÉM DO ZERO: VIVENDO NA RELIGIÃO DA TECNOLOGIA, medito a respeito de como a mídia não consegue mais conversar com o leitor comum, pois a internet já entrou em entropia, buscando um “retorno às fontes”, e assim as instituições religiosas estão sem o norte do espírito. E em DE ZERO A NERO: O QUE SHAKESPEARE ENSINOU A PETER THIEL SOBRE OS PERIGOS DA LIDERANÇA, disseco sobre a turma do Vale do Silício, que transforma o planeta e cria o vazio que nos desorienta atualmente. (As informações sobre as ementas de cada curso podem ser lidas em cada link acima) Dito isso, chegamos ao grande momento: Quanto custará cada curso?E a resposta é: Você decide.Isso mesmo: Quem determinará o preço será você, não eu.(“Ah, mas não é um combo?” “Não deveria ser um único preço?”, perguntarão os impacientes. Bem, eu estou dando a oportunidade de você dar o preço, conforme a sua consciência. Portanto, o mínimo que eu peço é que respeite algumas das minhas condições, certo?) Veja os temas que serão abordados. Veja a qualidade gráfica do material promocional. Veja o seu interesse. Veja como isso pode te ajudar na sua vida pessoal e pública. E aí você envia o valor no PIX abaixo (especificando-o na mensagem a quantia para cada curso):martim.vasques@gmail.comAssim que fizer o pagamento, mande uma mensagem no mesmo endereço acima (vou reforçar: martim.vasques@gmail.com), com o assunto escrito da seguinte forma - COMBO DO VIBESHIFT -, e eu vou lhe enviar um link com acesso, também por e-mail, a uma pasta especial no Google Drive, onde haverá todo o material disponível de cada curso (é importante reforçar que é bom ter uma conta no Google). Observação importante: Não haverá reembolso no valor a ser pago (e se alguém precisar de Nota Fiscal, posso providenciá-la sem problemas, desde que me informe todos os dados necessários). (Pediria também a paciência de me dar um prazo de 24 horas para responder, pois sou “o exército do eu sozinho” nesta empreitada) Qualquer dúvida, é só conversar comigo por e-mail ou via DM do Substack. Agora a única coisa que posso lhes dizer é: obrigado pela confiança no meu trabalho - e eu espero que consiga cumprir as expectativas. Um forte abraço do MVC You're currently a free subscriber to Presto. For the full experience, upgrade your subscription.
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quarta-feira, 26 de agosto de 2026
Em Busca Do Eros Perdido
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