Obrigado pela sua leitura! É comum ouvir hoje na boca de artistas e intelectuais de que a poesia perdeu o seu significado no mundo. Afirmam que ela não tem uma função de denúncia, de mostrar realmente quais são os problemas do ser humano; afirmam também que não existe mais a estrutura do verso e, por isso, a poesia deve ser ouvida ou transformada em uma espécie de instalação hermética que somente alguns podem entendê-la. Como não bastassem essas afirmações, procuram sempre justificá-las com citações de teóricos que dizem entender algo da poiesis, mas na verdade tentam entender apenas o umbigo de suas autorreferências; obviamente, a referência mais comum é a de Theodor Adorno, que disse em algum dia infeliz de sua vida que não havia mais poesia depois de Auschwitz. Geoffrey Hill chega até nós justamente para nos mostrar o contrário desta situação. Nascido em 1932 em Bromsgrove (e falecido em 2016), uma pequena cidade rural de Worcestershire, na Inglaterra, Hill construiu uma obra sólida nos versos e na prosa crítica, marcada pela erudição, pelo domínio completo das formas e, em especial, pelo questionamento metafísico-moral. Seu primeiro livro, publicado quando tinha 26 anos, chamava-se For the Unfallen (1958) e provocou um pequeno impacto nos círculos literários ingleses. Tratava-se de um poeta que não hesitava em nenhum momento de seu verso, que tinha uma coragem de abordar o assunto mais espinhoso sem nenhuma concessão ao gosto da época e com a determinação do artista que sabia a função de sua arte. A partir daí – e com livros memoráveis como King Log (1968), Mercian Hymns (1971) e Tenebrae (1978) – Hill provou para seus pares que, ao lado de Yves Bonnefoy, Seamus Heaney e Ted Hughes, era um dos maiores poetas da Europa. Contudo, se toda essa celebração de sua obra não o fez ficar quieto, escrevendo livros cada vez mais ousados, como The Mystery of Charity of Charles Péguy (1983) e Canaan (1997), também não impediu ficar mais conhecido, especialmente em terras brasileiras. Se temos as traduções das poesias completas de Bonnefoy (publicadas pela Iluminuras como Obra Poética), de Seamus Heaney (cortesia da Companhia das Letras) e até mesmo de Ted Hughes (Cartas de Aniversário, Record), por que Geoffrey Hill ficou de fora da lista? (A exceção foi rompida em 2021, quando o poeta Erico Nogueira traduziu, na íntegra, as Odes Bárbaras pela É Realizações) O motivo é simples: Hill é um poeta difícil. O adjetivo não está aqui para a provocação do leitor. Em cada livro, nota-se que Geoffrey Hill procura tornar um poema algo cada vez mais cifrado, mais elusivo. Para conhecer realmente sobre o que ele está falando, deve-se saber muito bem a história da Inglaterra – especialmente os séculos XVI e XVII -, a história da Europa, a história das duas grandes guerras mundiais, um pouco de breviário de santos católicos e anglicanos e, last but not least, detalhes de execuções nos campos de concentração alemães. Além disso, não se trata de um poeta que emocione no sentido vulgar do termo; sua linguagem é sempre marcada por uma tensão entre a crueldade da situação a ser meditada e a limpidez de como ela é descrita; o desejo de ser sóbrio nos sentimentos revela-se como resultado de querer fazer da poesia mais do que uma mera denúncia do estado das coisas e que veja a sua própria limitação. Hill pretende que o leitor sinta a poesia como uma maneira que leva ao homem um pouco de dignidade à sua vida e que, no fim, junto com o questionamento religioso, perceba que a arte não passa de “uma triste e enfurecida lamentação” (a sad and angry consolation). Este é o tema destes quatro livros da sua fase tardia: The Orchards of Syon (2002), Scenes from Comus (2005), Without Title (2006) e A Treatise of Civil Power (2007). Não seria exagero dizer que Hill escreve o mesmo tomo há pelo menos seis anos, publicando-os apenas em quatro partes diferentes e separadas. A semelhança temática é óbvia: os poemas falam, sem exceção, do papel do poeta em um mundo onde a consciência individual é dominada pela libido dominandi dos poderes e dos potentados – leia-se Estados Nacionais e Impérios. O título da última parte, A Treatise of Civil Power (Um Tratado de Poder Civil), inspirado nos escritos de John Milton e de Richard Hooker, deixa clara a intenção política. Mas não se deve confundir a política que Hill defende como aquela que os ideólogos de plantão exigem para a idiotização do mundo; o que está em jogo é o delicado equilíbrio entre a ordem secular e a ordem espiritual de uma Europa que perdeu a noção de seu propósito e que só pode recuperá-la se o poeta assumir a sua vocação de profeta. Dessa forma, as referências crípticas de Hill aos trabalhos de Milton e de Hooker não são exibições de erudito. Ele se vê na mesma linhagem destes dois grandes homens que viveram o tumulto das Guerras Civis na Inglaterra e percebe as assustadoras semelhanças entre àquela época e a nossa: o fanatismo das ideologias que substituem o humano por uma idéia, a loucura dos governantes que não se dominam em suas paixões e o papel solitário de alguns que tentam provar para a posteridade que não viveram um sonho insano. Em A Treatise, além de dialogar com esses novos mestres, Hill continua a se aprofundar em seus velhos temas, como a tensão entre a poesia e a religião, o mistério da santidade e do martírio e, em especial, o velho e bom problema da Teodiceia. Por isso, a galeria de “profetas-irmãos” aumenta consideravelmente neste último livro. Temos Milton e Hooker, mas também temos Edmund Burke e William Blake, dois visionários que anteciparam e vivenciaram a loucura da Revolução Francesa. Podemos caminhar juntos com o profeta Joel, com o chanceller alemão Willy Brandt e até mesmo com Elias Canetti, presente em uma versificação exemplar de um trecho de Massa e Poder. Entretanto, quem nos pega pela mão e nos mostra como estão os nossos dias é o próprio Geoffrey Hill, que prova que ainda há poesia depois de Auschwitz em versos como estes: It is not a matter of justice. Justice is in another world. Or of injustice even; that is beside the point, or almost. Nor even of the continuity of hirelings, the resourceful; those who are obese – the excellent heads of hair – the beautiful or plain wifes, secretaries and translators. The riots and demonstrations that now appear like interludes, masques, or pageants, or students´ rags; the police water-cannon; you look for the film´s director but cannot find him. There is the captioned Wall; there the Reichstag, the Brandenburger Tor variously refurbished, with and without wire; there´s Willy Brandt knelling at the Ghetto Memorial on his visit to Warsaw, December of Nineteen Seventy: I did what people do when words fail them. (Não: não se trata de justiça. Justiça é em outro mundo. Nem tampouco de injustiça – o que é inexato, ou quase. Nem mesmo disto: que os mercenários continuem, os danadinhos; os obesos – as cabeças privilegiadas de cabelos – as belas cônjuges, ou normais, secretárias e tradutoras. Os motins e manifestações que agora soam feito interlúdios, mascaradas, cortejos, zines; o jato d’água da polícia: você procura o cineasta e não encontra. Há o Muro legendado; há o Parlamento, o Portão de Brandenburgo multidecorado, com arame e sem arame; há Willy Brandt ajoelhado no Memorial do Gueto ao visitar Varsóvia, em dezembro de setenta: Eu fiz o que se faz quando as palavras faltam.) (On Looking Through 50 Jahre im Bild: Bundesrepublick Deutschland) [Tradução de Erico Nogueira] Quem desconhece a língua inglesa não perceberá a rapidez do raciocínio em versos que serpenteiam, que tentam encontrar a expressão justa da indignação que ronda uma nação e seus homens, até que, de repente, o próprio poema mostra que as palavras são precárias demais e que a única reação decente é se ajoelhar e enfim pedir perdão. Para Hill, a atitude de Willy Brandt é a de um herói que aceita plenamente o seu destino, a sua vocação. O poeta deve fazer o mesmo, deve sacudir-se e sacudir os outros o tempo todo para fugir do limbo. Contudo, não haverá serenidade nessa atitude: o poeta se mostra enfurecido em seus versos, deve mostrar ao mundo que não aceitará o atual estado das coisas e que a poesia, mesmo em sua precariedade, provará que ainda existe apesar de todos os holocaustos da História. Ele sabe que a “tragédia tem tudo sob o seu mirante” (tragedy has all under its regard), mas também sabe que a poesia ajuda a reverter um pouco tal situação. Em A Treatise of Civil Power, Geoffrey Hill prova que Theodor Adorno estava sempre errado: a poesia continua a mostrar seus caminhos precários na História. A lição está em nos mostrar que, muitas vezes na vida, quando a arte mostra a sua impotência, a única coisa a se fazer é juntar as mãos e pedir para que não ocorra o holocausto da própria literatura. Somente dessa forma não teremos o sacrifício do ser humano realizado por si mesmo. Quem quiser colaborar com o meu trabalho, além do valor da assinatura desta newsletter pessoal, pode me ajudar por meio do pix: martim.vasques@gmail.comE quem quiser apertar o botão abaixo só para fazer a minha felicidade - e manter essa newsletter de modo mais profissional, be my guest: Queridos leitores: Quando eu falo de vibeshift, falo na verdade de um processo que começou desde 2016, se aprofundou em 2018, foi sufocado em 2020 na época da COVID e se acelerou em 2022 com a popularização da IA. Há um nome específico para ele: “a revolta das elites contra a revolta do subsolo”. Os três cursos que produzi de forma independente confirmam este diagnóstico. O problema é que (quase) ninguém entendeu isso. E daí surge a confusão em que estamos metidos. Aqui, vejam um trecho de uma das aulas: Por exemplo: em RAÍZES (E CONSEQUÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO, eu analiso como as placas tectônicas da história do nosso país entraram em choque e como o sistema do Estado se tornou incapaz de permitir uma liberdade mínima para o cidadão. Já em ALÉM DO ZERO: VIVENDO NA RELIGIÃO DA TECNOLOGIA, medito a respeito de como a mídia não consegue mais conversar com o leitor comum, pois a internet já entrou em entropia, buscando um “retorno às fontes”, e assim as instituições religiosas estão sem o norte do espírito. E em DE ZERO A NERO: O QUE SHAKESPEARE ENSINOU A PETER THIEL SOBRE OS PERIGOS DA LIDERANÇA, disseco sobre a turma do Vale do Silício, que transforma o planeta e cria o vazio que nos desorienta atualmente. (As informações sobre as ementas de cada curso podem ser lidas em cada link acima) Dito isso, chegamos ao grande momento: Quanto custará cada curso?E a resposta é: Você decide.Isso mesmo: Quem determinará o preço será você, não eu.(“Ah, mas não é um combo?” “Não deveria ser um único preço?”, perguntarão os impacientes. Bem, eu estou dando a oportunidade de você dar o preço, conforme a sua consciência. Portanto, o mínimo que eu peço é que respeite algumas das minhas condições, certo?) Veja os temas que serão abordados. Veja a qualidade gráfica do material promocional. Veja o seu interesse. Veja como isso pode te ajudar na sua vida pessoal e pública. E aí você envia o valor no PIX abaixo (especificando-o na mensagem a quantia para cada curso):martim.vasques@gmail.comAssim que fizer o pagamento, mande uma mensagem no mesmo endereço acima (vou reforçar: martim.vasques@gmail.com), com o assunto escrito da seguinte forma - COMBO DO VIBESHIFT -, e eu vou lhe enviar um link com acesso, também por e-mail, a uma pasta especial no Google Drive, onde haverá todo o material disponível de cada curso (é importante reforçar que é bom ter uma conta no Google). Observação importante: Não haverá reembolso no valor a ser pago (e se alguém precisar de Nota Fiscal, posso providenciá-la sem problemas, desde que me informe todos os dados necessários). (Pediria também a paciência de me dar um prazo de 24 horas para responder, pois sou “o exército do eu sozinho” nesta empreitada) Qualquer dúvida, é só conversar comigo por e-mail ou via DM do Substack. Agora a única coisa que posso lhes dizer é: obrigado pela confiança no meu trabalho - e eu espero que consiga cumprir as expectativas. Um forte abraço do MVC You're currently a free subscriber to Presto. For the full experience, upgrade your subscription.
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quarta-feira, 5 de agosto de 2026
A Fúria Do Poeta
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