Obrigado pela sua leitura! Como Aprendemos a Amar a BombaSobre um pequeno detalhe emocionante do filme "Oppenheimer", dirigido por Christopher Nolan
[Este texto estava acessível somente para os assinantes pagos. Com o lançamento de A Odisseia, o novo (e mais ambicioso além de ser, infelizmente, o pior) filme de Christopher Nolan, decidi torná-lo disponível a todos, já que, desde que o ensaio foi escrito em 2023, passei a ter novos leitores. Divirtam-se.] Todos falam sobre J. Robert Oppenheimer (1904-1967) e o Bhagavad-Gita, mas poucos comentam a respeito da verdadeira conexão que importa em relação ao primeiro teste atômico: o poeta inglês John Donne (1572-1631). Donne e Oppenheimer tinham muito em comum, pelo menos no aspecto do caráter de cada um. Eram oportunistas talentosos, que sabiam se reinventar profissionalmente conforme a exigência do momento, seja no campo da política, seja no campo da arte que praticavam (literatura e ciência, respectivamente). Além disso, eram dois mulherengos consumados. Aliás, foi uma mulher – Jean Tatlock, militante aguerrida do Partido Comunista – que apresentou a obra de Donne a Oppenheimer. Este, por sua vez, não só sabia de tudo sobre a física quântica em que atuava, mas era um leitor voraz, consumindo toda a poesia modernista que lhe era ofertada (Eliot era um dos seus poetas favoritos). Esta diferença o permitiu ver os acontecimentos dos quais fez parte de uma maneira completamente inusitada, pois deu a Oppenheimer a capacidade de articular em palavras o sentimento que permeava o próprio fato histórico que ele testemunhava, seja como espectador, seja como protagonista. Foi o que ocorreu quando ele teve de batizar o lugar em Los Alamos, Novo México, onde aconteceria o primeiro teste atômico bem-sucedido. E como foi bem-sucedido: quem estava presente ali, no dia 16 de julho de 1945, às 5h30 da manhã, afirma que a luz provocada pela explosão foi igual a um sol que cegaria os nossos olhos para sempre. Obviamente, depois disso, o mundo nunca mais seria o mesmo. Quando Oppenheimer foi obrigado a consagrar o lugar deste acontecimento único na história da humanidade, ele escolheu um nome de aparente, mas enganosa, simplicidade: Trinity. Sim, Trindade. A Trindade. Na hora, ele não explicitou quais foram as razões para tal batismo. Anos depois, ao ser questionado, ele argumentou que sua principal inspiração foi a poesia de John Donne, especificamente o Soneto Sagrado XIV e o “Hino a Deus, meu Deus, em minha Enfermidade” - sendo que este talvez tenha sido o derradeiro escrito do poeta, antes de falecer. Havia um outro motivo para a referência a Donne: Oppenheimer soube, naquela mesma época, que Jean Tatlock tinha cometido suicídio (há suposições de que ela teria sido assassinada pela CIA, mas isso é outra história). As implicações entre amor e morte, criação e destruição, são mais do que evidentes, e chegam até ser – perdoem-me o pleonasmo – reveladoras. A “trindade” do sítio vem da seguinte estrofe do Soneto Sagrado XIV: Batter my heart, three-person’d God, for you/ As yet but knock, breathe, shine, and seek to mend;/ That I may rise and stand, o’erthrow me, and bend/ Your force to break, blow, burn, and make me new. (No longa de Christopher Nolan sobre o cientista, o momento em que Cillian Murphy, o ator que interpreta Oppenheimer, profere o primeiro verso, no meio do deserto, é deveras emocionante) Na tradução nacional feita por Paulo Vizioli, ficaria assim: “Deus de trina pessoa, a esta alma sova/ brilhe e pause por ti meu coração;/ para me erguer, me abate; e sem perdão/ me corta, queima, quebra e me renova”. A pergunta que me faço cada vez que tento imaginar o que Oppenheimer viu ao escolher estes versos é a seguinte: será que ele anteviu o futuro – no caso, o nosso futuro? Oppenheimer era um sujeito brilhante, assim como Donne, e ambos eram homens que tinham a capacidade de conciliar, de maneira agônica, as contradições e os paradoxos que a vida nos impõe. Quando Donne escreveu o Soneto Sagrado XIV, já era um convertido à Igreja Anglicana, depois de ter sido batizado no catolicismo, indo depois ao protestantismo e só alcançando alguma paz ao ser o Deão da Igreja de São Paulo, um cargo eclesiástico-estatal criado pelo próprio Rei Jaime I para apaziguar o atormentado e polêmico poeta. O resto do poema confirma tanto as intuições futuras de Oppenheimer como a memória amargurada de John Donne: I, like an usurp’d town to another due,/ Labor to admit you, but oh, to no end;/ Reason, your viceroy in me, me should defend,/ But is captiv’d, and proves weak or untrue. (Na versão de Vizioli, fica assim: “Meu esforço o sucesso não comprova,/ E, praça de outrem, sofro usurpação;/ Teu fraco vice-rei, minha razão,/ caiu ou não me ampara nesta prova”) Ou seja: para Donne, a razão foi uma vice-governante da sua alma que não lhe ajudou em nada na hora de maior provação; mas, para Oppenheimer, a mesma razão – seria a razão científica? – nunca mais o defenderia quando a sua maior criação finalmente foi manifestada no mundo. Essa criação, claro, essa obra-prima suprema da destruição, era nada mais, nada menos que a bomba atômica. Por outro lado, o que Oppenheimer também sugere, ao batizar o nome do lugar do primeiro teste atômico, é que, mais cedo ou mais tarde, nós teríamos de amar o que foi revelado ali. Assim como a Trindade, que é um nó górdio difícil de ser compreendido por nós, meros mortais (pois como o Pai, o Filho e o Espírito Santo podem coexistir em uma única substância invisível que estrutura toda a nossa realidade?), a bomba nuclear foi a energia que movimentou a nossa modernidade – e que nos persegue até os nossos dias (o sucesso estrondoso do filme de Nolan é a maior prova disso). Sem ela, tanto a nossa evolução como a nossa destruição se tornaram algo comum em nossas vidas. Não podemos mais viver sem o amor que criamos pela mesma bomba que pode nos aniquilar. A menção a Donne feita por Oppenheimer se torna um axioma quando observamos o final do Soneto: Yet dearly I love you, and would be lov’d fain,/ But am betroth’d unto your enemy;/ Divorce me, untie or break that knot again,/ Take me to you, imprison me, for I,/ Except you enthrall me, never shall be free,/ Nor ever chaste, except you ravish me. (Vizioli: “Mas te amo, e teu amor desejo só;/ Porém, uni-me ao inimigo teu./ Divorcia-me, rompe aquele nó,/Toma-me agora, me aprisiona, que eu/ Sou livre só quando a teus pés me arrasto,/ Só quando me violas sou casto.”) O objeto de amor – a bomba – é também o objeto de ódio e amargura. Estamos presos nele, até o fim dos tempos. O que J. Robert Oppenheimer viu em Los Alamos não foi apenas a fúria do sol. Mediado pelos versos de John Donne, ele também profetizou que seríamos violentados pela misteriosa (e implacável) força da Providência que até hoje ninguém conseguiu compreender. Quem quiser colaborar com o meu trabalho, além do valor da assinatura desta newsletter pessoal, pode me ajudar por meio do pix: martim.vasques@gmail.comE quem quiser apertar o botão abaixo só para fazer a minha felicidade - e manter essa newsletter de modo mais profissional, be my guest: Queridos leitores: Quando eu falo de vibeshift, falo na verdade de um processo que começou desde 2016, se aprofundou em 2018, foi sufocado em 2020 na época da COVID e se acelerou em 2022 com a popularização da IA. Há um nome específico para ele: “a revolta das elites contra a revolta do subsolo”. Os três cursos que produzi de forma independente confirmam este diagnóstico. O problema é que (quase) ninguém entendeu isso. E daí surge a confusão em que estamos metidos. Aqui, vejam um trecho de uma das aulas: Por exemplo: em RAÍZES (E CONSEQUÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO, eu analiso como as placas tectônicas da história do nosso país entraram em choque e como o sistema do Estado se tornou incapaz de permitir uma liberdade mínima para o cidadão. Já em ALÉM DO ZERO: VIVENDO NA RELIGIÃO DA TECNOLOGIA, medito a respeito de como a mídia não consegue mais conversar com o leitor comum, pois a internet já entrou em entropia, buscando um “retorno às fontes”, e assim as instituições religiosas estão sem o norte do espírito. E em DE ZERO A NERO: O QUE SHAKESPEARE ENSINOU A PETER THIEL SOBRE OS PERIGOS DA LIDERANÇA, disseco sobre a turma do Vale do Silício, que transforma o planeta e cria o vazio que nos desorienta atualmente. (As informações sobre as ementas de cada curso podem ser lidas em cada link acima) Dito isso, chegamos ao grande momento: Quanto custará cada curso?E a resposta é: Você decide.Isso mesmo: Quem determinará o preço será você, não eu.(“Ah, mas não é um combo?” “Não deveria ser um único preço?”, perguntarão os impacientes. Bem, eu estou dando a oportunidade de você dar o preço, conforme a sua consciência. Portanto, o mínimo que eu peço é que respeite algumas das minhas condições, certo?) Veja os temas que serão abordados. Veja a qualidade gráfica do material promocional. Veja o seu interesse. Veja como isso pode te ajudar na sua vida pessoal e pública. E aí você envia o valor no PIX abaixo (especificando-o na mensagem a quantia para cada curso):martim.vasques@gmail.comAssim que fizer o pagamento, mande uma mensagem no mesmo endereço acima (vou reforçar: martim.vasques@gmail.com), com o assunto escrito da seguinte forma - COMBO DO VIBESHIFT -, e eu vou lhe enviar um link com acesso, também por e-mail, a uma pasta especial no Google Drive, onde haverá todo o material disponível de cada curso (é importante reforçar que é bom ter uma conta no Google). Observação importante: Não haverá reembolso no valor a ser pago (e se alguém precisar de Nota Fiscal, posso providenciá-la sem problemas, desde que me informe todos os dados necessários). (Pediria também a paciência de me dar um prazo de 24 horas para responder, pois sou “o exército do eu sozinho” nesta empreitada) Qualquer dúvida, é só conversar comigo por e-mail ou via DM do Substack. Agora a única coisa que posso lhes dizer é: obrigado pela confiança no meu trabalho - e eu espero que consiga cumprir as expectativas. Um forte abraço do MVC You're currently a free subscriber to Presto. For the full experience, upgrade your subscription.
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sexta-feira, 17 de julho de 2026
Como Aprendemos a Amar a Bomba
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