#Cinema: O filme mais inassistível de todos os tempos“O Espelho”, Andrei Tarkovsky, uma obra-prima do grande diretor russo, famoso por realizar um novo tipo de cinematografia completamente inovadora aos padrões da época
Imagine um filme em que a progressão, a atuação e o enredo são distorcidos tal qual um espelho fragmentado que reflete uma imagem completamente surreal não condizente com o que deve ser captado pela nossa visão? Essa obra existe e será objeto de uma análise mais aprofundada a seguir: “O Espelho”, de Andrei Tarkovsky. O filme é a epítome máxima da realização do influente diretor: é o que ele se propugnou a fazer enquanto teórico do cinema, ou seja, o ato de ”esculpir o tempo”, conforme os seus ensinamentos. A maior prova disso é que este é profundamente autobiográfico e dolorido para quem o assiste, mas extremamente recompensador, visto que o espectador deve despender um esforço desmesurado para tentar compreender e ser agraciado, ao decorrer do visionamento da obra, com uma fotografia lindíssima, planos-sequência intrigantes, narração não-linear fragmentária, trilha sonora marcante e atuações magistrais por parte de elenco extremamente capacitado por um corpo dos melhores atores soviéticos da época. O começo da película é emblemático: inicia-se em preto e branco tal qual se fosse a transmissão de um programa televisivo consoante as características do padrão da época, ou seja, imagem chuviscada numa televisão de tubo, e progride-se com um exercício de fonoaudiologia por parte da fonoaudióloga para um menino gago. Em um corte abrupto, é-se apresentado à Natalia, interpretada pela bela atriz Margarita Terekhova, uma jovem russa que fuma no quintal de casa em um tronco de uma árvore retorcida, uma lindíssima casa eslava em estilo cottage típico do início do século XX; até que um desconhecido, uma espécie de caixeiro-viajante, interpela-a e conversa com a jovem brevemente, até a despedida de ambos. A seguir, a progressão é feita sob intenso fluxo de consciência, quando se mostra a dor da protagonista causada por diversas situações adversas e as suas reminiscências sobre a sua vida pregressa, marcada por intensas chagas emocionais em decorrência da instabilidade psicológica vivenciada por esta. Nesse interregno, há a narração de uma voz sobreposta, ao decorrer da obra, semelhante a de um oráculo, por parte de Arseny Tarkovsky, pai do cineasta e um dos mais distintos poetas da União Soviética. Em outra tomada, há a explosão de um casebre vizinho, que pode ser interpretado como um gatilho para a patologia mental da protagonista. Esse momento de crise psicótica é retratado pelo cineasta em tons de âmbar, numa técnica estilística semelhante a outras vindouras, como “O Espelho”, filme de 1986. Nisso, num recurso de não-linearidade narrativa, o espectador é transposto para um compêndio de imagens puramente angustiantes acerca da biografia de Natalia. Em tomadas tonitruantes, claudicantes e dolorosas, percebe-se um cenário de desespero causado por intenso sofrimento mental da personagem, que se reproduz no seu comportamento para com as pessoas ao seu redor. A seguir, em outro estágio do filme, percebe-se a complexa relação da protagonista com o seu marido, retratado como um homem distante e frio, mas muito atencioso com os seus filhos. E nessa relação há mais uma vez o desvelo do diretor em demonstrar os picos de tensão ao decorrer da obra cinematográfica. Nesse ínterim, pode-se constatar a maestria do diretor soviético em perscrutar o âmago das personagens, principalmente Natalia e o seu filho, Aleksei, que desenvolve fortes traumas psicológicos ao presenciar cenas surreais de guerra e do comportamento da sua mãe, que alterna entre a loucura e a realidade. A circularidade do filme advém do seu final excruciante e bastante dolorido, como se justificasse que Aleksei, que se torna um poeta decadente e não reconhecido, fosse mais uma vítima das escolhas adversas dos seus pais do que culpado pelas suas ações. É notório reconhecer que a obra têm um que de incompreensibilidade para o espectador mediano, mas a sinestesia presente nesta determina as sensações que se deve ter quando se assiste (e a compreensibilidade não é uma delas), principalmente a sinestesia (mesmo que o filme não contenha cheiro, o diretor faz com que o público possa sentir o odor de determinadas cenas). Por fim, vale destacar também a brilhante fotografia e o translúcido figurino que destacam a hiper-realidade da película, mesmo quando não se tinham efeitos especiais avançados para a época, o que faz com que a mesma seja considerada de uma obra muito a frente do seu tempo. A quem ainda não teve a oportunidade de assistir, o filme completo está disponível no YouTube. Mais do que recomendado! Assine o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo. Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura.
|
Total de visualizações de página
sábado, 30 de maio de 2026
#Cinema: O filme mais inassistível de todos os tempos
Assinar:
Postar comentários (Atom)





Nenhum comentário:
Postar um comentário