O terror psicológico de Emily BrontëA estética gótica da obra coincide de maneira supreendente com o realismo psicológico da narrativaO terror psicológico de Emily Brontë Por Ulysses Pereira de Siqueira Emily Bronte criou quatro ou cinco personagens verdadeiramente assombrosas. Mas não estamos nos referindo, aqui, à estética gótica que enfeita a sua obra. “Assombrosa” é a genialidade da sua criação. O sr. Earnshaw, Heathcliff, Catherine, Hindley: todos esses, pouco antes de morrer, manifestam sintomas psiquiátricos muito bem definidos. Só a deteriorização do Joseph é menos evidente. Mas nenhum deles nos parece louco desde o início. O gênio da autora se revela precisamente no realismo psicológico com que é capaz de representar na sua ficção uma variedade de “tipos” de caráter que na sua época sequer existiam enquanto “tipos”. Isto é algo que ficará mais claro ao longo deste artigo. Sabemos que em meados do século XIX, enquanto a srta. Bronte escrevia Morro dos Ventos Uivantes, os termos classificatórios que designam com precisão científica os “tipos” presentes na sua obra ainda não haviam sido formulados. É como se estivessemos falando de alguém que pela primeira vez na ficção literária representasse os quatro temperamentos da medicina antiga em personagens realistas com um caráter bem definido. Mas é preciso sublinhar que as personagens da Emily Bronte não são caricaturas. Heathcliff, assim como o Iago de Shakespeare, pode ser comparado a um psicopata: mas o caráter de Iago, ao contrário do de Heathcliff, não é suficientemente desenvolvido na estória para que nós tenhamos uma ideia precisa da sua suposta “psicopatia”. Assim, uma leitura crítica de Morro dos Ventos Uivantes não pode passar despercebida pelo fato de que o homem do século XXI jamais confundirá um vampiro com um psicopata. Muito daquilo que causaria “estranheza” para a leitora média da Emily Bronte já é algo com o que estamos acostumados. Por exemplo, o termo “psicopatia” foi introduzido na psiquiatria alemã por Julius L. A. Koch, em 1888, e, ao longo do século XX, várias dessas concepções psiquiátricas sobre a loucura têm sido popularizadas na arte audiovisual moderna. Na época da Emily Bronte não havia ainda nenhum manual sistemático sobre doenças mentais, ou das anomalias do caráter, que fosse amplamente baseado em observações clínicas. Os primeiros casos criminais bem definidos em termos de “psicopatia” datam do final do século XIX. Estamos, hoje, tão habituados com a figura do “psicopata”, que a famosa série Dexter (2006) já pode representá-lo na sua forma domesticada. É diferente de Jack o Estripador. O caso real de Jack, “o estripador”, é do final do século XIX. Hoje, a figura do “estripador” participa menos do terror do que do “gore”, e este é um tipo frequentemente satirizado em comédias “trash”. A leitora contemporânea da Emily Bronte certamente não tinha a mesma familiaridade que nós com este “tipo”. Os primeiros grandes manuais psiquiátricos surgiram no início do século XX, onde termos como “maníaco-depressivo”, “ciclotimia”, “esquizofrenia”, “paranóia”, “catatonia”, “histeria”, etc., adiquiriram significação técnica precisa e se tornavam termos correntes e universalmente aceitos na literatura científica. A vulgarização das doutrinas psicológicas, cada vez mais bem desenvolvidas ao longo do século XX, possibilitou que o cidadão medíocre se tornasse capaz de distinguir categorias psiquiátricas de categorias morais ou religiosas. Nós, então, aprendemos a usar categorias psiquiátricas no lugar de categorias morais. Por exemplo, imagine uma menina inquieta, irritadiça, que se exalta e fica eufórica, orgulhosa, com a mesma prontidão com que de repente, e aparentemente sem motivo, torna-se melancólica: frequentemente ela própria se delara “bipolar”. Um outro diz: “eu tenho TDAH”. Qualquer psicólogo cristão sabe que não pode confundir “luxúria” com “ninfomania”, atualmente denominada “transtorno do comportamento sexual compulsivo”. O padre exorcista já é treinado para poder discernir entre “histeria” e “obssessão demoníaca”. Historicamente, os limites entre a ética e a psicologia foram sendo progressivamente melhor definidos. Um homem culto do nosso tempo não pode ignorar as categorias psicológicas que implicam em “tendências inatas”, nem as categorias psiquiátricas que implicam em “traumas” e “fixações” infantis. Todas essas distinções são perfeitamente válidas, inclusive no âmbito jurídico. O homem moderno, que não acredita em magia mas sim na “ciência”, estranha que ao longo de 1600 houveram na Inglaterra “surtos” de caça-às-bruxas. O século XX talvez tenha tentado antes explorar estes acontecimentos politicamente do que procurado fazer deles algum sentido. De qualquer modo, está claro para nós, hoje, que em muitas dessas estórias de bruxas o elemento “demoníaco” se confunde com o “psiquiátrico”. As pessoas tendem normalmente a aplicar categorias conhecidas aos fenômenos que lhes causam “estranheza” e horror. As grandes estórias de horror são aquelas que conseguem “isolar” a causa da nossa estranheza em uma figura que rejeita todas as categorias familiares que tentamos projetar sobre ela e dominá-la, e que aparece para nós como sendo em si mesma algo incognoscível e inumano. Foi o psiquiatra alemão Ernst Jentsch (1906) quem primeiro estudou cientificamente a “psicologia do estranho”, do que é inquietante. O seu estudo foi posteriormente retomado por Freud no artigo “O Infamiliar” (1919), onde ele se refere à sensação aterrorizante de quando algo familiar torna-se subitamente estranho, sinistro e perturbador. E foi também nessa época que Lovecraft atualizava para o mundo o gênero literário do gótico. Podemos supor que este autor não teria tido muito sucesso caso tivesse se mantido apenas no plano da psicologia, onde a própria causa da “estranheza” já não poderia ser considerada estranha… Mas em meados do século XIX os diagnósticos médicos sobre a loucura não distinguiam toda a grande variedade dos fenômenos comportamentais, afetivos e intelectuais que vieram a ser exaustivamente descritos e classificados ao longo do século XX. A leitora média da Emily Bronte não teria muitas possibilidades de compreender as suas personagens senão com as categorias morais e religiosas que lhe eram familiares à época. Imagine que Heathcliff, por exemplo, fosse como um menino “neurodivergente” vítima de negligência e abuso infantil: por mais estranho que fosse o seu comportamento, nós jamais o classificaríamos como uma espécie de “demônio”. Mas Ellen Dean, uma senhora muito empática, tentando compreender o elemento de estranheza que existe em Heathcliff, identifica-o por “isto”, “demônio”, “vindo do inferno”. Somente na primeira metade do século XX é que psicólogos como Anna Freud e Melanie Klein puderam explorar casos de “crianças demônio”, muito parecidas com Heathcliff na infância. Assim, imaginamos que muitas dessas categorias morais ou religiosas utilizadas na narração de Wuthering Heights servem apenas para indicar de maneira metafórica o elemento de “estranheza” presente nas suas personagens, com as quais a leitora média da Emily Bronte não seria capaz de se identificar inteiramente. A Família EarnshawO sr. Earnshaw, cidadão nobre de um pequeno vilarejo do interior da Inglaterra, viajando por Liverpool, cidade portuária, encontra na rua um moleque pequeno de etnia desconhecida e resolve adotá-lo. A narrativa da chegada de Heathcliff em Wuthering Heighs é suscinta, e nós nunca ficamos sabendo de nenhuma justificativa razoável para a conduta do sr. Earnshaw além da mera sugestão de que esta teria sido motivada por pura compaixão. A sra. Earnshaw - cujo primeiro nome não é mencionado em momento algum - após reagir de maneira explosiva à descoberta do “menino cigano”, e sem alcançar nenhuma explicação satisfatória do marido, simplesmente passa a resmungar até ficar mais calma… e esse assunto nunca mais volta a ser mencionado… Mas que cena! O sr. Earnshaw, cansado e irresponsivo, parece ouvir sem interesse o tagarelar da sua esposa, que a própria narradora omitiu. A morte da sra. Earnshaw é aludida de passagem já na página seguinte, e daí em diante nunca mais se ouve falar dela. A irrelevância da mãe de Catherine parece sugerir um certo “distanciamento” psicológico seu com relação aos filhos e ao marido. Essa falha na “comunicação” ou, dito de outro modo, essa falha na empatia que existe entre o sr. e a sra. Earnshaw, como veremos mais tarde, é um tema constante ao longo de toda a obra. Heathcliff é batizado pelo nome do primogênito falecido de seu pai adotivo. A preferência que o sr. Earnshaw lhe devota nos parece completamente irracional, assim como o juízo que faz de seu filho Hindley: de que este “não servia para nada e jamais prosperaria, não importava aonde fosse”. A sra. Dean nem nenhuma outra personagem parecem compreender por que é que o sr. Earnshaw pensa desta maneira. As suas motivações subjetivas permanecem incompreensíveis, misteriosas, e, diríamos nós, “desconectadas” da realidade - da “realidade” que ficamos conhecendo por meio da sra. Dean. A ampla e constante demonstração de bom senso da sra. Dean atrai a nossa confiança, e não temos nenhum motivo justo para duvidar da sua sinceridade, mas é o próprio desenrolar da estória que confirma as nossas suspeitas sobre o sr. Earnshaw. Porque quando ele fica doente, e começa a manifestar certa debilidade mental, a empregada nos diz que o sr. Earnshaw “parece ter enfiado na cabeça que, por ele gostar do menino, todos o odiavam e desejavam fazer-lhe mal.” (p. 96). É sutil a maneira como Ellen Dean sugere que a lógica do sr. Earnshaw não está muito de acordo com os fatos objetivos que ela observa. O sr. Earnshaw não está pensando que Heathcliff é invejado por causa das suas demonstrações de afeto - ele sequer considera esse problema de um ponto de vista prático e objetivo -, mas “parece ter enfiado na cabeça” que a causa da perseguição contra Heathcliff é a sua preferência subjetiva, ou seja, independentemente da justiça com que ele a expressa. O que a sra. Dean está nos relatando aqui, de maneira simples, é inconfundivelmente um episódio de delírio paranoico. O desenvolvimento da doença do sr. Earnshaw confirma a nossa suspeita de que a sua predileção por Heathcliff, que não pode se expressar senão de maneira desproporcional e geradora de conflitos, não tem nada que ver com Heathcliff mas somente com o próprio Earnshaw. Seria possível afirmar que tudo que o sr. Earnshaw faz por Heathcliff equivale subjetivamente a algo que ele faz por si mesmo. Heathcliff, ainda criança, seria capaz de sentir isto, e, como toda criança, é capaz e “absorver” e “introjetar” o modo de ser do seu cuidador. Heinz Kohut demonstrou que essa falha na empatia é a causa do que em psicologia clínica ficou conhecido como “narcisismo”. O apego de Heathcliff por Catherine, como veremos mais adiante, “reflete” o apego de Earnshaw por Heathcliff; e o apego de Catherine por Heathcliff parece corresponder ao amor dela pelo pai emocionalmente ausente. Estas ligações de “apego” que se formam na infância, como estudadas pelo psicólogo John Bowlby, possuem uma qualidade de amor “incondicional” praticamente indestrutível - e é realmente espantoso como até mesmo vítimas de abuso sexual na infancia preferem frequentemente se identificar com seus agressores-cuidadores do que se separar deles. Penso ser este o fato psicologico fundamental referido por uma breve reflexão da filha de Catherine sobre a ligação de seu primo com Heathcliff: “o primo [Hareton] estava ligado a Heathcliff por elos tão fortes que a razão não era capaz de partí-los - correntes forjadas pelo hábito, que seria uma crueldade tentar arrancar.” (p. 4381). Este é um tema que se relaciona intimamente com o sentido moral da estória. O Sentido Moral (parte 1): A Misantropia
O sr. Lockwood começa a sua narrativa explicando o motivo da sua atração pela natureza isolada das charnecas de Yorkshire, no interior da Inglaterra. Ele próprio se considera um misantropo - e declara para Heathcliff que “um homem sensato deve se contentar com sua própria companhia”. “As pessoas daqui realmente vivem com maior intensidade, mais em si mesmas, e menos nas mudanças superficiais e nas coisas externas e frívolas” (p. 122). Assim, o caráter local da sociedade em que irá se hospedar passa a ser relacionado, por meio dele, às suas qualidades de “misantropo”. “Ele ama e odeia, escondendo igualmente o que sente, e considera uma espécie de impertinência ser amado e odiado em troca”. O misantropo confessa uma timidez excessiva, uma exagerada tendência para “retraír-se e fechar-se em si mesmo como um caracol”. E “graças a esse temperamento curioso, ganhei a reputação de ser deliberadamente cruel”. Note como aqui as pessoas que o julgam confundem as suas inclinações “anti-sociais”, de origem psicológica, com puras intenções odientas. A sua identificação subjetiva com o povo da Thrushcross Grange sugere que os próprios habitantes ensimesmados da região possuem também uma qualidade “misantrópica” de caráter. A misantropia é para o indivíduo o que a xenofobia é para a sociedade. Mas estas palavras possuem em nosso tempo uma marcada conotação moral e emocional que é preciso moderar. A “misantropia” do sr. Lockwood não tem tanto valor moral quanto serve de metáfora para a caracterização de tendências psicológicas inatas; do mesmo modo, a aversão que os habitantes das charnecas de Yorkshire têm pelo estrangeiro é relativa, como nos sugere a própria narradora:
É por esta característica ser tão acentuada que o sr. Lockwood imagina Catherine (a filha) como uma mulher exótica que foi repelida pelos “indígenas rabugentos que não a reconhecem como um dos seus” (p. 87). Mas ele também irá descobrir que está enganado sobre ela. A própria Catherine Heathcliff é tão avessa a elementos estrangeiros quanto qualquer outro habitante da região, de modo que ela sequer parece notar - ao contrário da vigilante sra. Dean - a possibilidade de que o sr. Lockwood fosse, talvez, um homem mais interessante por quem se apaixonar. Espanta-nos como seu interesse pelos “outros” parece ser tão exageradamente limitado. É como se estivessemos em uma sociedade de “autistas”. O conceito psiquiátrico de “autismo” não existia na época em que Wuthering Heighs foi escrito, mas, de qualquer modo, devemos supor que existissem autistas. Indivíduos “autistas” nos causam estranheza pelo fato de que não somos capazes de nos identificar com seu estado mental habitual. Mas os estudos psicológicos sobre o autismo podem nos ajudar não só a compreender tais indivíduos como também a educá-los para uma convivência “funcional” em sociedade. A obra do Oliver Sacks é um dos grandes exemplos da atitude “altruísta” e compreensiva que podemos ter diante de indivíduos “neurodivergentes” em geral. E julgamos ser verossímil, senão provável, que o termo “misantropia” usado por Lockwood também possa indicar metaforicamente algo desse conjunto de tendências e hábitos típicos de um indivíduo “autista”. O próprio termo “autismo” significa “ensimesmado”, e o psiquiatra Eugen Bleuler, quem primeiro formulou o conceito, se referia a uma tendência inata ao “retraimento do mundo exterior para o interior”. Eu vou sugerir ao leitor, agora, que faça o seguinte exercício de imaginação: imagine que a autora de Wuthering Heighs estivesse representando indivíduos “neurodivergentes” em um contexto histórico onde as próprias categorias psicológicas que hoje nós usamos para identificar e compreender estes “tipos” ainda não existiam. Que palavras, expressões ou classificações a autora poderia usar para designar o que há de “estranho” em tais personagens? Pode ser que o estilo gótico tenha lhe ocorrido espontaneamente para dar forma literária ao seu realismo psicológico. A estética gótica da sua obra coincide de maneira supreendente com o realismo psicológico da narrativa. E a ausência do sentido religioso na sua estória acaba por nos fazer atribuir um sentido metafórico a categorias como “céu”, “inferno” e “demônio”. Se há um elemento religioso, ele é satirizado: o Joseph é um hipócrita, que só põe a mão na Bíblia “a fim de catar promessas para si mesmo e atirar maldições aos seus semelhantes”. Mas, novamente, a própria palavra “fariseu” para se referir a Joseph parece estar deslocada do seu sentido estritamente moral. Joseph é irracionalmente odiento e cruel, e nós acrescentaríamos também “neurótico”. As suas motivações nos parecem incompreensíveis, e é difícil atribuir intenções morais a comportamentos cuja motivação nós sequer podemos compreender. Com isso, julgamos que as categorias morais e religiosas empregadas pela sra. Dean frequentemente possuem um sentido metafórico, a fim de indicar qualidades psicológicas. O Inferno Pessoal de HeathcliffA criança pobre e negligenciada, que um senhor meio paranóico raptou para a sua cidade xenofóbica, aonde cresceu sem educação, sem amigos, e sendo violentamente odiado e abusado: isto é Heathcliff. Ele é a sombra de Catherine - “eu não posso viver sem a minha alma” (p. 252) - sua única amiga, sua irmã, sua amada. E, tal como uma sombra, ele não tem sobrenome. A sua própria identidade humana é frequentemente negada pela narradora, pela família adotiva, pelo vizinho: referem-se a ele como “aquilo”, “demônio”, “vindo do diabo”. Quando ele foi pego invadindo a casa dos Linton, com Catherine, enquanto tinha ainda uns onze anos, tratam-no com uma violência desproporcional, e o empregado que o captura nos enoja com a brutalidade da sua fala:
Mas Heathcliff não pode ser objeto da nossa compaixão: ele é incapaz de empatia. Ele sequer compreenderia o sentido da nossa compaixão por ele. Tudo o que é capaz de sentir, além do seu amor por Catherine, são impulsos selvagens de ira, e sentimentos de vingança. Os seus pensamentos de vingança, no entanto, parecem não ter nenhum propósito senão o alívio da dor - “enquanto penso nisso, não sofro”. É uma vingança animal, de motivação irracional ou “impulsiva”, que só se relaciona acidentalmente com a elevação da sua posição na sociedade. A sua necessidade de contato social é psicologicamente inibida; mas ele não apresenta nenhum tipo de inibição moral. Ele se retira do mundo exterior: isola-se em seu mundo interior; e, de fato, chega ao ápice do solipsismo pouco antes de morrer. Não há categoria moral ou religiosa que possa definí-lo. A sua presença é “infernal”, mas em um sentido metafórico. Essa é a personagem de maior complexidade psicológica em toda a estória, e nós precisamos compreendê-la a fim de poder captar o verdadeiro sentido moral dessa obra, que voltaremos a abordar mais adiante. O filósofo Joseph de Maistre, em 1797, escrevendo contra a abstração iluminista, dizia que não existe nem nunca existiu “homem” nenhum, mas que todo homem que ele já conhecera ou era francês, ou alemão, ou judeu, ou grego… mas nenhum era apenas “homem”. Em Morro dos Ventos Uivantes, Heathcliff é como se fosse apenas “homem”. A sua origem etnica é desconhecida, e esse é o único nome que consta na sua lápide (p. 449). Heathcliff é a encarnação do “estrangeiro” habitando a vila mais xenofóbica da Inglaterra. Este menino de fala estranha se torna automaticamente o alvo central do ódio exagerado daqueles “indígenas rabujentos” dos quais falava Lockwood. É justamente a projeção coletiva de todo esse ódio que passará a constituir a “subjetividade” de Heathcliff. Um psicanalista diria que ele “introjetou” e passou a personificar (“actin-out”) a visão negativa que fizeram dele. Ele se vinga, e a sua vingança é completa, e é proporcional ao ódio de que foi vítima. O resultado final da sua vingança é a completa assimilação dos Linton pelos Earnshaw. Após sua morte, a única coisa que deixou no mundo de “seu” foi a assombração que passou a habitar a região das charnecas. É perfeitamente inútil tentar definir Heathcliff como uma pessoa “perversa”. Ele é quase como um elemento da natureza, a cria de um ser elemental, ou, talvez, de um “daemon” chamado “cuco”. Mas a complexidade psicológica dessa personagem é representada com tamanho realismo que nós podemos permanecer tão céticos quanto o sr. Lockwood em relação ao caráter “sobrenatural” da sua estória. O “negativismo” característico de Heathcliff o induz sempre a fazer o contrário do que os outros esperam que ele faça. A narradora expressou esse negativismo com um sentimento de estranheza: “ele parecia sentir um prazer perverso em despertar aversão” (p. 129). Aqui, o termo “perverso” expressa apenas a estranheza da atitude. O negativismo psíquico é uma tendência inata nos tipos “esquizóides” ou “autistas”, uma tendência muito difícil de ser educada. Até mesmo quando Catherine sugere ao menino que ele talvez devesse se limpar, a resposta é marcadamente “negativista”: “vou ficar tão sujo quanto quiser, e gosto de ficar sujo, e vou ficar e pronto” (p. 112) - e note que esta é uma resposta exageradamente infantil para um rapaz adolescente. É como se a sua autonomia psíquica fosse tão débil que ele precisasse fazer um esforço de compensação para reforçá-la. Então, ao invés de fundir-se com o seu “meio”, ele separa-se absolutamente do seu entorno. E isso o torna inconciliável com a sociedade humana. A “ganância” de Heathcliff, que Catherine percebe ter aumentado depois da sua viajem, parece ser motivada mais por um instinto de sobrevivência do que por outra coisa, o instinto de autopreservação de uma pessoa que se vê não só isolada mas em oposição à sociedade humana como um todo. A sua condição mental no fim da vida é o resultado final do agravamento de todos esses fatores. O que é Heathcliff?
A carta de Isabella para Ellen Dean é uma verdadeira estória de horror. É ela quem nos revela ou resume toda a dimensão gótica da obra. Ela vive um “sonho monstruoso”. A nossa identificação com ela, no entanto, é limitada, pois sabemos que o seu testemunho é parcial. Ela vê a si mesma como uma mulher inocente, tola, que foi enganada por um homem sem alma, arrastada por ele para uma mansão afastada no alto da colina, aonde agora padece em cárcere privado agressões físicas e verbais. Quando olhamos para Heathcliff pela perspectiva de Isabella ele não nos parece nada além de um vampiro - “será que é um ghoul, ou um vampiro?”, reflete a sra. Dean mais tarde. Mas o que para Isabella é uma verdade absoluta, para a sra. Dean é apenas uma impressão momentânea, que ela compara com outras na memória:
Isabella sente-se “repleta de carinho por Catherine”, de quem ela só conhece os caprichos, enquanto ignora a sua identificação essencial com Heathcliff… mas, de Heathcliff, Isabella só conhece o seu ódio, sendo ela a sua vítima. O defeito dos Linton é a vaidade. Assim como o sr. Linton se ilude com uma Catherine cuja natureza essencial ele ignora, também o amor tolo de Isabella não passa de uma vaidade da qual o próprio Heathcliff passa a zombar impiedosamente. E assim como o sr. Linton não sabe odiar senão as aparências de Heathcliff, também o ódio infantil de Isabella não a leva nem a uma busca por justiça nem por vingança. Isabella é leviana. O relato patético do seu infortúnio não nos comove tanto, enquanto sabemos que o seu torturador sofre cem vezes mais do que ela sequer seria capaz de imaginar. Se Heathcliff é um demônio, talvez seja apenas porque fora criado no inferno. As próprias injúrias de Isabella não correspondem à verdadeira dimensão do mal para o qual se dirigem. Ela é capaz apenas de pressentir com “o que” ela está lidando, e é mais pela sua falta de coragem do que pela violência da qual é vítima que ela deseja “desumanizar” o seu agressor. Goethe, parafraseando Terêncio, declarou que “não há crime de que eu não me considere capaz”. Porque “nada do que é humano me é estranho”. Heathcliff é humano. A forte e saudável sra. Dean, que o conhece desde a infância, ora o demoniza ora toma o seu partido. Nem ela nem o sr. Lockwood parecem acreditar em fantasmas. A sra. Dean, contra todas as expectativas, apela em diversas ocasiões para a humanidade de Heathcliff, e chega a acreditar que ele sofre “dores de consciência” (p. 443). O seu julgamento sempre pressupõe empatia. E nós, como leitores, tendemos a imitar a atitude da narradora. Olhamos para Heathcliff com um misto de familiaridade e estranheza. Tentamos compreender o seu comportamento e a sua mentalidade, mas a nossa capacidade de identificação é sempre limitada por um elemento desconhecido. Quando a nossa capacidade de identificação projetiva falha, Heathcliff nos parece inverossímil. E quando Heathcliff nos parece inverossímil, passamos a acreditar em fantasmas, em demônios encarnados, em todas essas figuras do imaginário gótico. Por outro lado, naqueles momentos em que a nossa identificação é bem sucedida, queremos acreditar, (induzidos pela narrativa da sra. Dean), que o amor dele por Catherine corresponde a algum ideal romântico, o que também não é verdade. Hindley, Heathcliff e Catherine Earnshaw são personagens que parecem não ter sentimentos morais. Nós falaremos sobre a Catherine mais adiante. Podemos imaginar que a diferença psicológica entre Hindley e Heathcliff é como aquela que existe entre o tipo “autista” e o “esquizofrênico”. Mas ambos possuem traços de psicopatia. Hindley, como herdeiro legítimo da família Earnshaw, assume a sua posição na sociedade, e passa a comportar-se de acordo com ela. Mas Heathcliff, isolado socialmente, identifica-se com a natureza em torno, e nela se refugia. É algo irônico que Hindley, que acabamos de classificar como “civilizado”, seja capaz de uma violência completamente irracional, e brutal, tanto contra Heathcliff, como até mesmo contra o seu próprio filho. Heathcliff, por sua vez, não possui um caráter tanto violento quanto vingativo. Mas o pensamento de Heathcliff é acentuadamente introspectivo. Quando ele volta a encontrar Catherine, na casa do sr. Linton, este ainda se sentia “repelido” por sua mente, que julgava inalterável (p. 169). De fato, vemos Heathcliff confessar para Catherine que tinha pensado em matar Hindley e depois cometer suicídio (p. 164). A senhora Dean está sempre suspeitando de que o Heathcliff vai fazer alguma maldade (p. 165). Além disso, Heathcliff também demonstra não ter nenhum sentimento pelo próprio filho (p. 177). A empatia da sra. Dean por ele só lhe causa irritação (p. 445-446). É verossímil que ele tenha de fato matado Hindley. No fim da vida, diz não se arrepender de nenhum injustiça, porque não cometeu nenhuma (p. 452), algo muito estranho de se dizer diante da morte. Heathcliff em nenhum momento dá sinais de ter consciência moral ou sentimentos morais, e esta característica é um elemento intrínseco da sua “selvageria”, da sua completa falta de integração social. Mas o seu isolamento social jamais poderia ter sido tão absoluto se ele não possuísse também uma inabilidade psíquica fundamental para desenvolver empatia por conta própria. O Amor SelvagemCatherine desde pequena sempre passava o tempo com Heathcliff nos urzais. Quando os dois foram separados, a linda Catherine passou cinco semanas na casa dos Linton, voltando de lá como uma jovem civilizada. Hindley e sua esposa planejeram essa integração social de Catherine a fim afastá-la de Heathcliff. Este logo ressente-se dos novos hábitos da sua amiga. O prazer que ela encontra na convivência social marca o fim do seu relacionamento ironicamente idílico com o amigo selvagem. Heathcliff é anti-social tanto por força da sua própria natureza, como já explicamos, como pela segregação que lhe é imposta pelo lar adotivo. Assim, de que serve ele limpar-se de sua sujeira? Ele é sujo, e sua Catherine é quem deve se sujar para ficar com ele. Já podemos pressentir que o amor de Catherine pelos prazeres do mundo irá levá-la a casar-se com o Edgar Linton. Mas a sua alma está dividida. A confissão ansiosa que faz para a empregada revela certa “ambivalência”: “Eu aceitei, Nelly. Diga se fiz a coisa errada, depressa!” (p. 141). A sua incapacidade de refletir sobre este assunto por conta própria já manifesta um estado psíquico conflituoso, e ela arrasta Ellen Dean para a discussão mesmo contra a vontade da empregada. “Em primeiro lugar, você ama o sr. Edgar?” - pergunta a sensata sra. Dean. “Por que você o ama, srta. Catherine?”. Ela ama “da maneira como todo mundo ama”, “porque ele é bonito, uma companhia agradável”, mas não o amaria “se ele fosse feio ou bronco”… - E onde está o obstáculo, então? “Aqui, e aqui”, respondeu Catherine, batendo com uma das mãos na testa e a outra no peito: “Onde quer que a alma more”. Nelly acha isso muito estranho, não conseguindo entender. Mas o que se segue é ainda mais estranho e de difícil compreensão: “Se eu estivesse no céu, Nelly, seria muito infeliz”. Ela diz isto referindo-se a um sonho, um desses sonhos que permanecem sempre em sua memória, e que a “atravessam como o vinho atravessa a água”, mudando a sua maneira de pensar:
O que destacamos em itálico precisa ser corretamente interpretado. Aqui, “céu” é uma metáfora para indicar a sua natureza “civilizada” ou “social”. Os “urzais” significam a sua natureza “selvagem”, a mesma que ela compartilha tão intimamente com Heathcliff. Um pouco adiante na narrativa esta identificação é cruamente explicitada:
E, depois, pouco antes da sua morte, Catherine volta a se identificar com a sua natureza selvagem:
Agora, voltando para o relato do sonho, quando os anjos atiram-na de volta para a terra, ela acorda “soluçando de alegria”. Se ela estivesse no céu não seria feliz, mas esta “queda” não deixa de significar uma “degradação” na escala social. Assim, a sua alma está dividida entre Edgar e Heathcliff: entre o “céu” e “os urzais”. Mas os dois lados desta divisão são qualitativamente diferentes: a sua “alma” está identificada com Heathcliff, e apenas seu corpo é de Edgar - “Pode ficar com isto que está tocando agora [Edgar], mas minha alma estará no alto daquela colina antes que ponha as mãos em mim de novo” (p. 202). O “eu” é “interior” e essencial, enquanto que a circunstância social que o envolve é “exterior” e acidental. É por isso que a sua escolha pela vida “social” é ambivalente, e necessita ser socialmente reafirmada. Ela busca ansiosamente a reafirmação de Nelly: “mas diga se eu fiz o que devia, diga!” (p.141). O que o casamento de Catherine significa para ela é pouco mais que um arranjo social. Poder-se-ia dizer que se casou por “interesse” - “Já se eu me casar com Linton, posso ajudar Heathcliff a subir no mundo e fazer com que ele deixe de depender do meu irmão” (p. 146). Mas, neste caso, isso não quer dizer que as suas manifestações de afeto por Edgar sejam uma hipocrisia. Ela realmente gosta de Edgar. E, de fato, tendemos a concordar com Heathcliff - (cujo testemunho dificilmente podemos duvidar quando se trata da sua identificação mútua com Catherine) - quando ele diz que “Catherine gosta pouco mais [de Edgar] do que de seu cão ou de seu cavalo” (p.228). O amor de Catherine por Edgar possui um caráter marcadamente hedonista. Mas ela é visceralmente apegada a Heathcliff. Esta simples distinção é necessária para compreendermos a profunda “ruptura” que ocorre na alma de Catherine, e que justifica certas limitações da sua capacidade de empatia. Ela parece não compreender, ou não se importar, com o fato de que esse seu amor jamais poderia ter satisfeito todos os anseios de seu marido. Em todo caso, após o seu casamento com Edgar, a origem psíquica da sua desordem afetiva começa a se tornar mais evidente, e ficamos sabendo que “Catherine tinha períodos de melancolia e silêncio de tempos em tempos”, e que “A volta de seu humor solar era recebida com uma iluminação igual da parte dele” (p. 159). A “cisão” que já existia na sua alma é agravada com o afastamento de Heathcliff, e toda a sua personalidade se torna “ambivalente” - (alguns diriam “bipolar”). No início, ela “parecia quase apaixonada pelo sr. Linton e mostrava-se afetuosa até com a irmã dele” (p. 158). A sra. Dean, satisfeita com seu novo patrão, e desejosa de ver Catherine feliz, “acredita poder afirmar que a felicidade deles era profunda e crescente”, e, no entanto, logo no parágrafo seguinte, lemos que “a felicidade chegou ao fim quando as circunstâncias levaram ambos a achar que seu interesse não era a principal preocupação do outro” (p. 159). O seu casamento com Edgar, desde o princípio, jamais poderia ter sido plenamente satisfatório para ambos. O psiquiatra Kahlbaum, em 1882, formulou o conceito clínico de “ciclotimia” para se referir a essa desordem específica dos humores, caracterizada essencialmente pela mudança ciclica dos estados afetivos de euforia e de melancolia, mas em um grau menor do que o do “maníco-depressivo”, de modo que o indivíduo afetado ainda pudesse manter a sua funcionalidade social. Este conceito é um precursor do que os manuais mais atualizados denominam “transtorno bipolar”. Estas categorias médicas não existem para substituir as categorias morais: são duas categorias essencialmente distintas. O que não quer dizer que esta distinção seja sempre de fácil acesso. O conhecimento dessas condições psiquiátricas esclarecem o elemento de “estranheza” presente nas personagens da Emily Bronte. Assim, nós podemos nos perguntar até que ponto termos como “orgulhoso” e “egoísta” podem ser aplicados univocamente na qualificação do caráter de Catherine, ou se esses termos são usadas metaforicamente para significar alguma outra coisa. O comportamento de Catherine é “egoísta”, mas ela mesma seria mais “egoísta” do que qualquer outra personagem? Heathcliff é mais “orgulhoso” do que qualquer outra personagem, ou este é um juízo que confunde qualidades morais e tendências psíquicas desvairadas? O Romantismo Ingênuo dos Linton
As qualidades naturais de Catherine tornam a sua figura apaixonante. Heathcliff conta para a sra. Dean o que viu no dia em que esses dois jovens haviam sido pegos bisbilhotando a casa dos Linton: enquanto ela estava sentada no sofá em silêncio, “Edgar ficou olhando de longe, boquiaberto”, e “todos estavam com um ar de estúpida admiração”. Edgar também é bonito, mas é um garoto ingênuo, de sensibilidade afeminada. Seus pais o incentivam a cortejar a moça mais bonita da cidade. A cena dramática que a sra. Dean provoca entre Catherine e Edgar nos sugere certa fraqueza da parte de Edgar, que se recusa a reconhecer o caráter selvagem da sua esposa. O seu noivado é precipitado, e nós já desconfiávamos de que o sr. e da sra. Linton pudessem ter motivações vaidosas para desejar esta união. A família Earnshaw era rica e de antiga linhagem, e a própria Catherine era a maior beldade da região. Mas quando os pais de Edgar morrem por uma doença que contraíram de Catherine, isto nos parece um presságio de mau agouro sobre o futuro da sua família. E, de fato, o seu casamento marcará o fim do seu legado. Edgar Linton casou apaixonado. catherine tem “tanta fé no amor de Linton que acredita que poderia matá-lo sem que ele quisesse retaliar” (p. 167). Mas os Linton não amam nem odeiam com a mesma intensidade dos Earnshaw. Heathcliff acredita que “se ele [Edgar] amasse com toda a força de seu corpo franzino, não conseguiria amar em oitenta anos o que eu [Heathcliff] consigo em um dia” (p.228). Essas duas linhagens representam naturezas marcadamente opostas em termos de “domesticação” e “selvageria”. A intensidade exgerada das paixões pode ser o sinal de uma energia “extra”, exuberante, que promove o crescimento. Mas se esse “extra” não servir para promover a expansão social, pode muito bem manifestar-se sob formas desordenadas. Assim, Catherine possui um caráter selvagem que Edgar não compreende - “tente ficar feliz sem ser absurda!” (p. 163). Edgar é uma pessoa satisfeita e perfeitamente acomodado à vida. Mas esta acomadação parece implicar em uma certa perda de “energia”, ou, pelo contráro, é como se esta “domesticação” resultasse de um enfraquecimento das forças vitais da natureza. A sua linhagem inteira enfraquece: a sua irmã, Isabella Linton, morre muito jovem, de doença, assim como os seus pais, depois o filho de Isabella, e até ele próprio! Todos esses parecem ser criaturas frágeis diante da vitalidade exuberante dos Earnshaw - frequentemente sendo exibida numa forma exagerada de violência. Esta mesma oposição volta a ser representada no relacionamento da filha de Catherine com Linton Heathcliff. Quando cada um dos dois passa a descrever para o outro como imagina que seria o seu paraíso, eles acabam se contradizendo: “Eu [Catherine] disse que o paraíso dele seria apenas meio vivo; e ele disse que o meu seria ensandecido” (p. 349). A etimologia dos nomes das personagens de Wuthering Heights parece aludir a esta mesma dualidade entre “vida selvagem” e “estabilidade social”. Mas o nome de Isabella é especialmente irônico, significando algo como “fé inabalável”. Ela foge para se unir a um homem que nunca lhe dera atenção - no curto período de tempo em que este frequentara a sua casa -, e contra as advertências da irmã dele e de seu próprio irmão, apenas porque acredita na sua súbita declaração de amor. O nome “Edgar”, por sua vez, se relaciona etimologicamente com “riqueza” e “lança”, e “Linton” é um sobrenome aristocrático ligado à propriedades rurais. A estabilidade social é garantida pelas armas e pelas leis: assim, quando Edgar deseja expulsar Heathcliff de sua casa, ele recruta mais três homens armados para ajudá-lo. Mas quando as pessoas atingem um certo nível de acomodação na sociedade, as suas garantias de prosperidade passam a depender de estruturas sociais e políticas sobre as quais a maior parte delas já não tem quase nenhuma influência. O próprio Edgar, ironicamente, fora traído por seu advogado - subornado por Heathcliff - e por isso a sua filha perdeu todas as suas posses, caindo nas garras de um “Earnshaw” - cuja etimologia está de algum modo associada à “águia”. O que esses acontecimentos sugerem é que a excessiva acomodação social dos Linton prenuncia a fraqueza da sua linhagem que já está no fim. O Sentido Moral (parte 2): IncestoO sr. Lockwood em sua segunda visita à mansão Earnshaw é surpreendido por uma tempestade e acaba impedido de voltar para Thrushcross Grange, sendo assim forçado pela necessidade a passar a noite no antigo aposento de Catherine:
O casamento entre primos de primeiro é geralmente proibida por ser considerada incestuosa, mas não é sempre proibida como o é a relação entre irmãos, ou entre os descendentes diretos dos progenitores. O tema do incesto está claramente sugerido em Morro dos Ventos Uivantes quando passamos a relacionar esses três nomes que impressionaram a mente de Lockwood naquela noite assombrada que acabamos de recordar. Esses nomes se cruzam de uma maneira curiosa. Observe o seguinte. Catherine Earnshaw é a filha do sr. Earnshaw; ela se casa e, então, passa a se chamar Catherine Linton. Catherine Linton tem uma filha de mesmo nome, mas que futuramente, imaginamos, será chamada Catherine Earnshaw, (conforme supomos que ela irá se casar com Hareton Earnshaw, por quem está paixonada quando enfim deixamos para trás a mansão Earnshaw junto com Lockwood). E Hareton Earnshaw é o filho de Hindley Earnshaw, que é o irmão de Catherine Earnshaw, a mãe de Catherine Earnshaw, (futura) esposa de Hareton. Catherine (filha), que herda a beleza e algo do temperamento da mãe, parece também repetir a estória da mãe. E Hareton possui o talento e o porte bruto pai. A associação entre a (futura) esposa de Hareton com a irmã de seu pai é muito sugestiva. Se o amor de Catherine (filha) por Hareton pode não ser considerado incestuoso, alguma sugestão existe de que essa relação possui uma tendência incestuosa. É como se o sangue de Catherine correndo pelas veias de sua filha Catherine quisesse se unir ao sangue de seu irmão Hindley que corre pelas veias de Hareton. Podemos prosseguir com as associações dos nomes, e veremos que as sugestões de incesto se multiplicam. Catherine Linton, a filha de Catherine Linton, apaixona-se por seu primo Hareton Earnshaw, cujo pai de criação é Heathcliff. Mas, antes disto, a Catherine (filha) se casa com Linton Heathcliff, tornando-se também uma “filha por adoção” de Heathcliff - seu tutor, segundo a lei. Então, Catherine e seu amado Hareton são primos de primeiro grau que poderiam, se quisessem, ter considerado um ao outro como “irmãos” por convensão social. Além disso, como que para reforçar esta ideia, ficamos sabendo que a empática sra. Dean considera ambos como se fossem seus próprios filhos (p. 438), e ela diz assim para o sr. Lockwood: “Talvez o senhor nunca tenha reparado, mas os olhos de ambos são identicos, e são os olhos de Caterine Earnshaw” (p. 439). Semelhante atrai semelhante. Essa ideia de que Catherine (filha) e Hareton são tão próximos como se fossem irmãos pode sem dúvida sugerir uma relação de tendência incestuosa. Mas essa sugestão se torna mais significativa quando notamos que a mesma ideia está implicada em todas as outras relações amorosas que ficamos conhecendo. Por exemplo, Heathcliff é irmão adotivo de Catherine Earnshaw. Heathcliff é o predileto do pai de Catherine, e o sr. Earnshaw se ressente do fato de que o garoto se torna mais submisso a ela do que a ele próprio. Catherine parece tentar deslocar o seu apego da mãe (emocionalmente distanciada) para o pai, mas este a rejeita, e nós ficamos pensando se o seu apego pelo meio-irmão não teria sido motivado pela identificação projetiva de seu pai para com ele - conforme já explicamos no início deste texto. A filha de Catherine, por sua vez, também ama o pai (Linton) mais do que tudo, e quando este traz seu sobrinho (Linton Heathcliff) para sua casa, (e sabemos que os dois são fisicamente parecidos (p.369)), a sua filha Catherine faz do garoto o único objeto de seu interesse. A paixão obstinada da Catherine - tanto a mãe como a filha - corresponde de algum modo com essa limitação exagerada do seu interesse amoroso ao que lhe é “familiar”. Esta tendência é recorrente na estória. Catherine Linton, (a filha), é parecida com a mãe, e seu primo Linton Heathcliff se parecia fisicamente com o tio (p. 369). Os dois primos de Catherine, aparentemente, eram os únicos dois rapazes do seu convívio, e apenas um deles, por comparação com o outro, parecia apto para cortejá-la. A estreiteza do círculo social dos Linton é supreendente. O sr. Lockwood, encontrando Catherine e Hareton em sua primeira visita à mansão dos Earnshaw, e acreditando que talvez ele fosse o marido dela, começa a lamentar o fato pensando que “esta é a consequência de ser enterrada viva: ela se atirou nos braços desse grosseirão por pura ignorância de que existem indivíduos melhores” (p. 62). Esta reflexão nos recorda de que uma das razões alegadas pelas quais a mãe da Catherine se apaixonou por Edgar é porque ele era “o único que estava por perto”, e que ela “só queria saber do presente” (p. 142). Mas essa delimitação estreita do horizonte social corresponde precisamente com aquela característica “misantrópica” dos habitantes da região da qual falávamos mais acima neste texto. Assim, parece que o ódio ao “estrangeiro”, ou ao que é alheio a um determinado círculo social está intimamente relacionado ao incesto, que é o amor desordenado pelo que é “familiar”, que pode limitar-se cada vez mais a um círculo social muito estreito. Esses dois termos são como opostos dialéticos um do outro. Santo Agostinho dizia que o incesto extingue a caridade, o amor ao próximo. O amor incestuoso tende a satisfazer-se exclusivamente em si mesmo abandonando o seu interesse pelo “próximo”. Mas esta tendência é contrária à ordem da civilização. O amor “selvagem” que existe entre Heathcliff e Catherine é o motivo da extinção dos Linton. Ora, o fundamento da ordem social é a caridade, portanto, o incesto conduz gradualmente ao isolamento social e à selvageria. O casamento entre primos pode promover o desenvolvimento de caracteres “autistas”, até que uma pequena sociedade se torne cada vez mais “fechada” em si mesma conforme seus habitantes vão adquirindo tendências misantrópicas e “narcisistas”. por fim, esta pequena comunidade interiorana, voltada para si e alheia ao mundo em torno, passa a ser assombrada por fantasmas e outras alucinações coletivas, que é a maneira como a natureza se vinga do uso egoísta que o homem faz das suas forças vitais. ConclusãoWuthering Heights pode ser considerado um romance gótico em termos de estrutura narrativa e de estética literária, mas o seu conteúdo é de terror psicológico. Espero ter podido demonstrar com este artigo como o realismo psicológico da autora é um elemento essencial para equilibrar as tensões que existem entre o elemento “romanesco” e o elemento “gótico” da narrativa. A nossa identificação com Catherine (mãe) faz o nosso sentimento tender para o romanesco, enquanto que a nossa estranheza com relação à Heathcliff leva-nos a desumanizá-lo. Só que Heathcliff nunca deixa realmente de ser humano - e a perspectiva menos limitada do sr. Lockood nos confirma isto - nem Catherine, por sua vez, é uma peronagem inteiramente convencional. O amor que existe ente esses dois possui tendências incestuosas que nunca são diretamente referidas, mas que são sempre sugeridas de maneira invertida com relação ao seu oposto dialético, a misantropia. É precisamente o sentido moral desse amor que se relaciona com o aspecto de “terror” que ensombreia a estória. O senhor(a) é atualmente um(a) assinante gratuito(a) de Livraria Trabalhar Cansa. Para uma experiência completa, faça upgrade da sua assinatura. |
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quarta-feira, 11 de março de 2026
O terror psicológico de Emily Brontë
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