Diário e rememoração, IX Por Alexandre Sartório Li Daisy Miller, ótima novela de Henry James, profundamente girardiana, na qual se desenrola a trágica trajetória da jovem americana Daisy Miller – espontânea, viçosa, pródiga em flertes, avessa a distinções sociais, mas, cujo verdadeiro caráter, ao fim e ao cabo, é uma das grandes questões da obra –, a partir do ponto de vista (a narração é feita em terceira pessoa) do jovem e rico americano Winterbourne, que a conhece em Vevey, Suíça, e depois a encontra em Roma. Por onde passa na Europa, a antipatia cresce em torno de Daisy, por causa da intimidade que ela tem com diversos homens, conduta fortemente desaprovada pelas sociedades (no sentido de uma certa comunidade de elite cujos membros se frequentam) americana e (genericamente falando) europeia. Na sequência que leva a cabo a novela, a moça tem o encontro final com Giovanelli, o italiano vaidoso e frívolo com quem flerta, no Coliseu, rapaz que completa um triângulo amoroso com Daisy e Winterbourne, levando este a acirrar seu desejo pela garota, ainda que em conflito com seu respeito, ao menos relativo pela tradição de distinção da ‘sociedade’; Winterbourne, em certos momentos – em que James usa o discurso livre indireto –, chega a admirar a beleza do italiano; o encontro é fatal, pois ela pega uma doença que lhe tira a vida depois de alguns dias, e se dá sob a cruz que ali havia à época, símbolo que, obviamente, nos faz remeter a figura da americana a Cristo; sob a cruz Daquele que foi sacrificado para tirar o pecado do mundo – carregando sobre seus ombros o ressentimento e o ódio dessa comunidade chamada humanidade –, ela entra na sua Via Crucis, que só pode terminar num sacrifício – e no consequente arrefecimento das animosidades, o qual se evidencia na narrativa, fundamentalmente, pelas palavras de Winterbourne e Giovanelli sobre a inocência de Daisy: – Ela era a moça mais linda que conheci na minha vida e a mais amável. – E, um momento depois, acrescentou: – E também a mais inocente. Winterbourne olhou-o e então repetiu suas palavras. – E a mais inocente? – A mais inocente! (Henry James, A Volta do Parafuso seguido de Daisy Miller, L&PM, 2010, p. 217) Winterbourne deixou Roma logo depois [da morte de Daisy], mas no verão seguinte reencontrou-se com sua tia, a sra. Costello, em Vevey. A sra. Costello era fã de Vevey. Nesse meio tempo, Winterbourne com frequência pensara em Daisy Miller e suas maneiras enigmáticas. Um dia falou sobre ela à sua tia; disse que lhe pesava na consciência ter sido injusto com ela. (Henry James, A Volta do Parafuso seguido de Daisy Miller, L&PM, 2010, pp. 217-218)... Continue a leitura com um teste grátis de 7 diasAssine Livraria Trabalhar Cansa para continuar lendo esta publicação e obtenha 7 dias de acesso gratuito aos arquivos completos de publicações. Uma assinatura oferece a você:
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quarta-feira, 11 de março de 2026
Diário e rememoração, IX
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