As origens czaristas do Gulag, que eram campos de trabalhos forçados, que “inspiram” a criação dos campos de extermínio nazistas. Há que se observar que nas narrativas da Shoah, há sempre um início em quê é registrado a execução sumária da maior parte dos prisioneiros. Nos Gulags há morte, mas ela paira como uma doença que aos poucos vai corroendo os prisioneiros, nos campos de extermínio nazista a morte existe de forma mecanicista, industrial. Tanto que muitos dos sobreviventes dos Gulags passaram anos, décadas aprisionados, algo inimaginável em um campo de extermínio nazista. Nos relatos dos sobreviventes dos Gulags há uma pletora de personagens cruéis, sádicos e brutos. Estes personagens são mais presentes e tanto quanto os guardas prisionais, fazem parte do ecossistema totalitário que condenou os prisioneiros. Há criminosos comuns, estupradores, ladrões, etc…que usam da força e da coação para tirar proveito dos mais fracos. Nos Gulags a opressão não era apenas do sistema ou dos oficiais, mas também do “camarada” condenado. Um detalhe que ressalta tal brutalidade é que há poucas prisioneiras mulheres nos Gulags, a maioria são homens dentro deste “subsolo”. Tal condição está retratado de forma aguda no conto Cruz Vermelha: “São incontáveis os delitos dos ladrões no campo de trabalhos forçados. Infelizes são os bons trabalhadores, dos quais o ladrão leva o último trapo, tira a última nota; e o trabalhador tem medo de reclamar, pois vê que o ladrão é mais poderoso do que a chefia. … O chefe é grosseiro e cruel, o educador é mentiroso, o médico é inescrupuloso, mas tudo isso são bobagens em comparação com a força corruptora do mundo da bandidagem. De qualquer modo, são pessoas, mas neles raramente se manifesta algo humano. Os bandidos, portanto, não são gente.” Os Gulags eram campos de trabalhos forçados onde corpos e almas eram submetidos a extremos de brutalidade e humilhação. Ainda assim, mesmo na época do terror stalinista, a morte dos prisioneiros não era necessariamente um fim buscado pelo Estado. Buscava-se a submissão plena. Dissidentes políticos, intelectuais, escritores, poetas, muitos da elite intelectual russa/soviética (mesmo apoiadores e entusiastas da revolução comunista), foram condenados aos campos - e surge desta experiência algumas das mais impactantes obras da literatura russa/universal. Preso pela primeira vez em 1929 por tentar distribuir uma carta censurada de Lenin, Chalámov foi libertado em 1932 após três anos de trabalhos forçados. Preso novamente em 1937, no início do grande expurgo, passou os 17 anos seguintes em Kolyma. É desta experiência que irá, até o fim de sua vida, se tornar os “Contos de Kolimá”. Vale notar que a obra de Chalamóv suscitou uma divergência histórica/estética/literária com o mais conhecido dos escritores dissidentes da União Soviética, Aleksandr Soljenítsin. Solzhenitsyn disse que o encarceramento de Chalamóv “foi mais amargo e mais longo que o meu, e digo com respeito que coube a ele, e não a mim, atingir o fundo do poço da brutalidade e do desespero para o qual toda a vida no campo nos arrastou”. Por sua vez, Chalámov era desdenhoso em relação a Solzhenitsyn, cuja fama invejava: recusou o convite de Solzhenitsyn para co-escrever Arquipélago Gulag e certa vez descreveu os campos como um tema “que pode acomodar livremente cem escritores do calibre de Solzhenitsyn e cinco Tolstói”. Na visão de Chalamóv, Solzhenitsyn “estetizava” a experiência do Gulag. Em um artigo sobre a rusga entre os dois escritores, o historiador e ensaísta Valery Yesipov disseca o drama literário e moral: “A aflição da literatura russa é que ela se intromete, dirigindo a vida das pessoas, opinando sobre assuntos nos quais não tem competência” – a declaração de Chalámov obviamente polemiza com Soljenítsin, que, a partir de meados da década de 1960, se posiciona abertamente contra o regime, baseando-se na tradição conservadora (Dostoiévski) e no exemplo moral de Tolstói. Em uma carta de 1972, Chalámov afirma categoricamente: “Soljenítsin está atolado nos temas da literatura do século XIX”, “todos aqueles que seguem os preceitos de Tolstói são trapaceiros”, “tais professores, poetas, profetas, escritores só podem fazer mal”. Shalamov estava convencido de que “todo tipo de inferno pode, infelizmente, voltar!”. A razão para esse pressentimento sombrio é que a Rússia não compreendeu a principal lição do século XX: “o animal interior pode se libertar mesmo sob o disfarce dos conceitos mais humanistas”. E mais: “A mera ideia de classificar as pessoas em ideologicamente “puras” e “impuras” era para ele um sacrilégio. Todos aqueles que acreditavam sinceramente na validade dos princípios da nova vida e que, tendo sido vítimas do terror, preservaram o que havia de humano, são, aos seus olhos, dignos apenas de compaixão. Nessa imparcialidade, compreensão e ternura reside a suprema retidão moral de Chalámov.” O senhor(a) é atualmente um(a) assinante gratuito(a) de Livraria Trabalhar Cansa. Para uma experiência completa, faça upgrade da sua assinatura. |
Total de visualizações de página
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Notas sobre os Contos de Kolimá, de Varlam Chalámov
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário