Atualmente, quando lemos as críticas cinematográficas na imprensa, somos obrigados a nos penitenciar como um numerário do Opus Dei, especialmente na hora de encarar o que Walter Porto escreveu, lá no distante ano de 2024, a respeito de Anatomia de uma queda, longa francês dirigido por Justine Triet, ganhador da Palma de Ouro em Cannes de 2023 e depois indicado à estatueta de Melhor Filme. Walter Porto foi promovido a ser o repórter de livros da Ilustrada. Ou seja: sua função é cobrir o mercado editorial. Ocorre que, às vezes, na falta de um crítico literário, ele também comete umas resenhas. Sua predileção de assunto é a cultura woke. Claramente, é um defensor dela. Até aí tudo bem, cada um faz o que conhece melhor, mas o problema é quando tudo leva a crer que ele divulga somente uma parcela deste setor (afinal, o mundo é vasto, etc. e tal). Agora, algum editor resolveu incumbi-lo para dissecar o filme de Triet pelo prisma da “narrativa”. Ah, a “narrativa”. De fato, um dos temas de Anatomia de uma queda é sobre o “choque de narrativas” em torno de uma mulher acusada de matar seu esposo, um infeliz que não conseguiu assumir as escolhas difíceis que fez na vida. Ocorre que isso é apenas a superfície da obra. E, para alguém que mexe com livros, recorrer a este recurso é um crime contra a linguagem - e contra o leitor. Olhem este trecho:
Os clichês do repórter “descolado” estão todos lá: “autoficção” (Proust mandou um abraço), “ficcionista de enorme potencial” (apesar da personagem no filme já ter três livros publicados), “influência” e “descompasso”. Meus leitores, citando Magritte: isto não é uma crítica. É um pepino. E dos grandes. Por quê? Simples: porque contrataram um repórter que não entendeu nada do filme que assistiu. É por isso que antes havia a figura do crítico (Verdade seja dita: na mesma página chamaram Inácio Araújo para falar a respeito do longa, mas ele deve ter errado de sala e foi ver outro filme, pois seu texto é absolutamente incompreensível). Ele analisava o que foi exibido diante dos seus olhos. E mais: sabia a que tradição aquele (ou aquela, se pensarmos em Triet) cineasta fazia parte. (É de se perguntar porque a Folha chama um repórter de livros para falar de uma obra cinematográfica desse calibre, quando poderia encomendar o mesmo tipo de texto a um Sergio Alpendre, um Filipe Furtado, um Miguel Forlin ou um Luís Villaverde, que simplesmente estão à margem do que se passa nas redações da Barão de Limeira). E qual é então o assunto de fato de Anatomia de uma queda? Não é sobre “narrativas” ou sobre a “busca pela verdade”. É sobre o amadurecimento traumático de uma criança (o formidável Milo-Machado Graner) que, no meio de uma tragédia ímpar, decide ser infinitamente mais adulta do que os próprios pais e, indo além, do que o próprio sistema judiciário, o qual está louco para condenar a sua mãe porque assim tudo se resolve da maneira mais exata e técnica possível. Ao modo de Otto Preminger em Anatomia de um crime (1958; sim, Triet está brincando com esse clássico) e de um David Fincher em Zodíaco (2008), a cineasta analisa a queda da Europa pelos olhos de um menino (que, por uma ironia macabra, é cego). Daí o título - ou vocês acham que é um acaso o detalhe de que a mãe é alemã e o pai é francês, justamente as duas nações que comandam a política da União Europeia? É uma Europa paternalista, que cria essas “narrativas” fajutas porque é incapaz de encarar a sua própria história (sim, há uma diferença entre uma e outra, mas isso não vem ao caso agora). A insistência da nossa imprensa cultural em decifrar filmes complexos por meio de clichês - algo também copiado pelos influenciadores de redes sociais, que competem entre si na miopia analítica, seja do lado da direita ou da esquerda - só prova que, infelizmente, não estamos em nenhum porto seguro. Não à toa, a leitura do cenário político passa pelo mesmo problema (e a redação aqui jura que se alguém citar a batida frase de Hugo Von Hoffmanstahl, vamos mandar este sujeito ir para onde o Judas bateu as botas). A nossa política se tornou um caso de polícia porque somos obrigados a engolir os pepinos escritos por um Walter Porto da vida. Depois não sabemos porque ficamos entre Lula e Bolsonaro. E o pior: somos incapazes de fazer a anatomia da nossa própria queda. *** AVISO: NOVO CURSO - ALÉM DO ZEROQueridos leitores: Temos um novo curso ALÉM DO ZERO - VIVENDO NA RELIGIÃO DA TECNOLOGIA. Trata-se de um prosseguimento do assunto que abordei no meu curso anterior, De Zero a Nero - O que Shakespeare ensinou a Peter Thiel sobre os rumos da liderança, que você pode adquirir aqui. Serão seis aulas, de 30 minutos a 1 hora de duração. Aqui vão os temas abordados: O curso é também uma reflexão sobre certas obsessões minhas e que me acompanham desde a época do meu primeiro livro, Crise e Utopia - O Dilema de Thomas More (2012), indo até A Disciplina do Deserto, minha obra derradeira. Ambos os livros serão lançados juntos em 2026, se os deuses do mercado editorial permitirem. Dito isso, chegamos ao grande momento: Quanto custará o curso?E a resposta é: Você decide.Isso mesmo: Quem determinará o preço será você, não eu.Veja os temas que serão abordados. Veja a qualidade gráfica do material promocional. Veja o seu interesse. Veja como isso pode te ajudar na sua vida pessoal e pública. E aí você envia o valor no PIX abaixo:martim.vasques@gmail.comAssim que fizer o pagamento, mande uma mensagem no mesmo endereço acima (vou reforçar: martim.vasques@gmail.com), com o assunto escrito da seguinte forma - CURSO ALÉM DO ZERO -, e eu vou lhe enviar um link com acesso, também por e-mail, a uma pasta especial no Google Drive, onde haverá todo o material disponível do curso (é importante reforçar que é bom ter uma conta no Google). Observação importante: Não haverá reembolso no valor a ser pago (e se alguém precisar de Nota Fiscal, posso providenciá-la sem problemas, desde que me informe todos os dados necessários). (Pediria também a paciência de me dar um prazo de 24 horas para responder, pois sou “o exército do eu sozinho” nesta empreitada) Qualquer dúvida, é só conversar comigo por e-mail ou via DM do Substack. Agora a única coisa que posso lhes dizer é: obrigado pela confiança no meu trabalho - e eu espero que consiga cumprir as expectativas. Um forte abraço do MVC |
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Anatomia De Um Pepino
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