Manhã e Noite, de Jon FosseEm Manhã e Noite, Fosse descortina a dor e a tristeza da perda, para vivos e mortos.Escrito antes da conversão ao catolicismo, Manhã e Noite, é uma obra que permite ao leitor de Jon Fosse uma aproximação com o estilo e temas marcantes do autor norueguês. Publicado originalmente em 2000, ganhou belíssima edição pela editora Zain, e tradução direta do neonorueguês (nyrosk), tradução esta que preserva a oralidade da prosa fosseana, algo de suma importância para o autor. Tal recurso estilístico encontra suas raízes na antiguidade, tanto literária quanto religiosa. Podemos identificar o mecanismo mnemônico utilizado por Fosse - que usa de repetições, arcaísmos, personagens duplos, temporalidade narrativa sobreposta, etc - em textos clássicos da antiguidade (pensemos nos textos homéricos), quanto nas fórmulas e estruturas encontradas em preces. As obras de Fosse convidam o leitor a uma leitura reflexiva, silenciosa, meditativa. Um bom modo de entender o estilo (e as intenções) do autor norueguês é comparar a leitura de seus livros com a oração do terço católico. Exemplo perfeito desta preocupação encontra-se já no início do livro, quando Olai espera o nascimento de seu filho, Johannes: “Pois decerto deve haver um espírito de Deus que está em tudo que existe e tudo transforma em mais do que um nada, que dá sentido e cores, e portanto, Olai pensa, a palavra e o espírito de Deus estão em tudo, assim é que é, ele tem certeza, Olai pensa, mas a obra e a vontade de Satanás também estão lá, disso ele tem certeza igual, e se nessa inteireza há mais de um ou de outro, bem, aí ele já não está tão certo, Olai pensa, porque eles travam uma batalha, os dois, eles pelejam para saber quem é o mais forte, e já era assim provavelmente quando o mundo foi criado, Olai pensa, Deus criou o mundo bom e Ele é onipotente e onisciente, conforme dizem os que creem, mas não, ele talvez nunca tenha dado muito crédito a isso, mas da existência de Deus ele não tem dúvidas, pois Deus existe, sim, mas lá longe, bem longe, e aqui bem perto, pois em cada ser ele habita, e o abismo que aparta o distante e o nada onipotente de Deus e o ensimesmado e nada onipotente ser humano diminuiu quando Deus se transformou em homem e conviveu no meio de nós, quando Jesus caminhou sobre esta terra, não, disso ele nunca teve dúvidas…”... Continue lendo este post gratuitamente no app Substack |
Total de visualizações de página
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
Manhã e Noite, de Jon Fosse
Assinar:
Postar comentários (Atom)


Nenhum comentário:
Postar um comentário