Desde criança, em Bombaim, Salman Rushdie diz que aprendia as palavras como se aprendem canções antigas, aquelas que ecoam na garganta dos vivos e na memória dos mortos. E cada frase era um convite para atravessar fronteiras invisíveis — entre o sagrado e o profano, o sonho e a realidade, a vida e a morte. Por isso, talvez ele não tenha se surpreendido quando uma fatwa, decretada em 1989 pelo então líder supremo iraniano, aiatolá Khomeini, transformou seu livro, Os versos satânicos, numa sentença de morte. O romance narra a história de dois atores indianos que sobrevivem a um atentado terrorista aéreo e passam por metamorfoses simbólicas — um se vê associado ao anjo Gabriel, o outro ao demônio. Em meio a sonhos, delírios e episódios alegóricos, Rushdie relembra um episódio desagradável na tradição islâmica — os chamados “versos ab-rogados ou satânicos”, no qual Maomé fora enganado por Satanás e, momentaneamente, permitiu a adoração de deusas pagãs. Depois, questionado por um discípulo, voltou atrás, ab-rogando a permissão. Para o aiatolá Khomeini, a abordagem literária do assunto proibido foi interpretada como blasfêmia e, portanto, o autor deveria morrer. Quem morreu, no entanto, foi o aiatolá, sem revogar a pena de morte de Rushdie. Décadas depois, num evento literário em Nova York, Rushdie discursava sobre o refúgio, sobre o papel do escritor que ousa usar a liberdade de expressão, quando um muçulmano se materializou de modo abrupto e lhe deu vários golpes de faca. Ele perdeu a visão de um dos olhos e o movimento de uma das mãos, mas a fatwa do aiatolá não se cumpriu. O que restaria a um homem que fez da escrita um instrumento da liberdade contra a tirania fundamentalista, a não ser escrever sobre um encontro tão íntimo com a morte? Em Faca: reflexões sobre um atentado, Rushdie transformou a violência sofrida em meditação: o ataque torna-se metáfora e também testemunho. Porque, no fim, é isso que as palavras fazem melhor do que qualquer lâmina: rasgam o véu dos sentidos e expressam o abismo existencial de quem morre de medo da liberdade de expressão. A vida de Rushdie poderia muito bem ser um romance, com a epígrafe “a arte imita a vida e a vida imita a arte”. Porque, entre a fatwa e a faca, ele se tornou um personagem que atravessou as fronteiras do sagrado e do profano, do sonho e a realidade, da vida e da morte. Por isso ele pode dizer, com grandiloquência e muita verdade, que “a literatura ainda é o único exército que pode marchar sem armas — e, mesmo assim, transformar o mundo”. ___________________ Faca: reflexões sobre um atentado Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. |
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
#Literatura: o que restou da palavra
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