O escândalo de Madame Bovary não está no adultério, mas na seriedade. Nada de grandiloquência, nenhum trovão trágico: apenas a vida comum, com suas horas mortas, seus objetos gastos, suas expectativas miúdas. Ao tratar o cotidiano como matéria digna de literatura alta, Flaubert desloca o centro da arte — e, como notou Erich Auerbach, inaugura um realismo em que a banalidade passa a carregar o peso do destino. Emma Bovary não cai porque ama demais; cai porque ama mal, ama por imagens emprestadas. Seus desejos são moldados por romances, vitrines e salões imaginários. Auerbach percebeu que Flaubert não a julga: a crítica nasce da forma. O narrador se retira, a linguagem se torna impessoal, e o mundo — esse mundo estreito da província — fala por si. É a realidade que acusa, não a moral. Tudo conta: o vestido, o jantar, a conta do comerciante, o móvel escolhido com atraso. Esses detalhes não ornamentam a cena; eles a decidem. Para Auerbach, o drama moderno acontece precisamente aí, no acúmulo do insignificante. Não há deuses a desafiar, nem reis a derrubar; há hábitos, dívidas e gestos repetidos. A tragédia se instala sem anúncio, por desgaste. A ironia de Flaubert não busca o riso. Ela é fria, contínua, quase científica. E Auerbach insistiu nesse ponto. Para ele, a ironia aprofunda o trágico porque não oferece saída cômica. Emma não é caricatura. É levada a sério até o fim. E por isso dói. A mediocridade, elevada à dignidade literária, revela seu poder destrutivo. No fim, Madame Bovary não ensina uma lição, mas expõe uma condição. A literatura, ao abdicar do sermão, torna-se esteticamente mais objetiva. E, ao renunciar ao herói, encontra a pessoa comum. Auerbach viu nesse gesto uma virada histórica: a representação do real moderno, severa e sem consolação. O romance permanece atual porque ainda vivemos entre desejos fabricados e rotinas que os desmentem. Emma não passou; ela apenas mudou de cenário. _____________ Atualmente, você é um assinante gratuito de Não É Imprensa. Para uma experiência completa, atualize a sua assinatura. |
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terça-feira, 6 de janeiro de 2026
#Literatura: o fim do heroísmo
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