Li um tanto de Shakespeare nos últimos dias, mais atentamente Titus Andronicus (1593-1594), A Midsummer Night’s Dream (1595–1596) e The Winter’s Tale (1610–1611). A tragédia da queda desesperadora do grande herói romano Titus é magnífica. O primeiro impulso da queda vem do seu último e grande triunfo, a vitória contra os Godos, depois da qual leva como prisioneiros para Roma a rainha Tamora e sua família. Inconformada com a falta de misericórdia de Titus, que executou um dos filhos da rainha como compensação pela perda de seus próprios filhos na guerra, ela quer vingança. Tamora casa-se com Saturninus, homem que está para se tornar o rei romano, e põe em movimento um plano de vingança. Seu amante, Aaron, é a figura de extrema crueldade – ao fim, ele diz que se arrepende de qualquer bem que porventura tenha feito – que arquiteta o plano, executado pelos filhos de Tamora, no qual estão listados: o estupro e o corte das mãos e da língua de Lavinia – filha de Titus, ela se eleva a símbolo de beleza e pureza –; a incriminação dos filhos de Titus pelo assassinato de Bassianus, irmão de Saturninus e também aspirante a rei; e fazer Titus ter uma das mãos cortadas como reparação. Titus consegue reverter a situação, e termina a ação terrível da peça com os últimos jorros de sangue: depois de servir a Tamora a carne dos filhos dela (!), e matar sua própria filha – por causa da dor insuportável de vê-la naquele estado –, golpeia-a, matando-a, para depois ser morto por Saturninus, que por sua vez é assassinado por Lucius, o último sobrevivente dos mais de vinte filhos de Titus; é este sobrevivente que assume, por aclamação, o trono de Roma. A peça é extremamente violenta, cheia de crueldade límpida. Como em Édipo Rei, podemos enxergar, com certo esforço, falta no herói-protagonista – em Édipo, certa prepotência, intemperança; em Titus, falta de misericórdia –, mas ínfima comparada com a gigante onda trágica que os engole. A Titus certamente falta um maior impulso de clemência, mas as trevas do Mal que o encobrem, encarnadas fundamentalmente na figura de Aaron, são de uma densidade desproporcional. Sua reação – o festim diabólico, acompanhado do assassinato da filha arruinada e de Tamora – é a vitória final do Mal sobre um herói – como David Mills executando John Doe ao fim de Seven. Uma hora dessas preciso escrever mais longamente sobre Winter’s Tale e A Midsummer Night’s Dream. Do primeiro, só registro que é grande na expressão do ciúme violento de Leontes, rei da Sicília, que destrói a família e a amizade com Polixenes, rei da Boêmia, desarrazoado por desencadear-se em ambiente harmônico, sem presença exterior do Mal. Apesar das consequências ruins da atitude, que lhe causam anos de sofrimento e culpa, a peça, um dos romances, termina com a harmonia restabelecida: com a filha – que Leontes renegou por pensar ser fruto do adultério de sua mulher Hermione com Polixenes – de volta à Sicília, a reconciliação com o velho amigo e até com o ressurgimento da mulher, que ele havia matado, a partir de uma estátua perfeita que fizeram dela. Praticamente todos são virtuosos na peça, a não ser Autolycus, o velhaco, golpista, que acaba por ser pincelada essencial para o restabelecimento da harmonia. Quanto à comédia, é de fato um encanto: toda a ação brota do casamento de Teseu, Duque de Atenas, e Hipólita, rainha das Amazonas. O desencontro amoroso do início da peça, entre Hérmia, Lisandro, Demétrio e Helena, resolve-se por magia – graças à intervenção sortílega, um tanto desajeitada, do elfo Puck e de seu rei Oberon –, e a peça termina num casamento triplo, a re-harmonização do casamento de Oberon e sua esposa Titânia: pela magia, o mundo eleva-se em harmonia. Aliás, no início do último ato, o ato V, tendo ouvido a história cheia de fantasia da reorganização dos casais de jovens, Teseu faz seu (maravilhoso) elogio da imaginação: “Bem mais que verdadeiro; eu nunca fui [More strange than true. I never may believe Com “And as imagination bodies forth/ The forms of things unknown, the poet’s pen/ Turns them to shapes and gives to airy nothing/ A local habitation and a name.” parece que Heidegger ganhou uma inspiração divina e escreveu um epílogo a seus comentários a Holderlin e a essência da poesia. O poeta dá lar e nome a coisas desconhecidas. Ao nomear, o poeta da existência: a linguagem é (?) uma forma de vida (Lebensform, Wittgenstein, a quem, aliás, devo ler). O Duque reconhece que não consegue tocar aquilo que está além da razão, campo da imaginação, onde se movem habilmente os loucos, os amantes e os poetas: “Lovers and madmen have such seething brains,/ Such shaping fantasies, that apprehend/ More than cool reason ever comprehends.” O elogio não refere exatamente a capacidade de ‘inventar’, mas de ‘apprehend’ algo além do que a razão pode: de caminhar fora das fronteiras da racionalidade. O louco e o amante veem mais – e o poeta dá nome aos campos além-fronteira. E nestes campos estão os frutos mais sublimes. Na peça, ao fim e ao cabo, o conflito, a desarmonia, resolvem-se além do reino construído por mãos humanas, na floresta, o terreno algo sombrio, onde o inefável enleva os homens, onde o raciocínio se torna menos enrijecido e a imaginação solta suas amarras. A Harmonia excede a razão. 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terça-feira, 6 de janeiro de 2026
Diário e rememoração, V
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