O forasteiro Por Cláudio Comendini O texto de Karleno Bocarro sobre os livros selecionados para os Encontros: A Arte de Ler me reconduziu a um dos meus temas narrativos preferidos na literatura universal: a figura do forasteiro. Em Sátántangó, de László Krasznahorkai (ganhador do último Nobel de literatura), temos Irimiás, um sujeito ambíguo por excelência. Ele pode sim ser interpretado como uma espécie de encarnação do “mal” — mas não no sentido tradicional, como um vilão claro ou um demônio literal. Ele é mais sutil, mais corrosivo: um catalisador do colapso, um profeta farsante, um manipulador que se alimenta da miséria e da esperança alheia. Sua chegada à vila, onde todos acreditavam que ele estivesse morto, é tratada quase como um evento messiânico. Mas o que ele traz não é redenção — é desordem, submissão e desilusão. No entanto, é importante notar: a vila já está desestabilizada antes de sua chegada. O ambiente é de decadência, abandono, estagnação. Os moradores vivem em um estado de apatia, corrupção moral e desespero. Irimiás não cria o caos — ele o reorganiza, o canaliza, o explora. Ele oferece uma falsa promessa de salvação, e os habitantes, famintos por sentido, se entregam a ele. Nesse sentido, ele é menos o “mal” em si e mais um espelho da degradação já existente, um maestro do niilismo que apenas dá forma ao que já estava ruindo. Krasznahorkai constrói Irimiás como uma figura quase mítica, que transita entre o messias e o charlatão, entre o redentor e o predador. Ele não é o início do fim — ele é o ritual do fim. E talvez o mais perturbador seja perceber que ele não impõe nada à força: ele apenas oferece uma narrativa, e os outros se entregam a ela. Mas Irimiás pode não ser apenas um personagem — ele também pode ser visto como uma alegoria do espírito da decadência e de um vetor ideológico. Sua figura ambígua, que transita entre o messias e o charlatão, pode ser lida como uma alegoria da transição política que se desenhava no Leste Europeu nos anos 1980. Sátántangó foi publicado em 1985, quando o regime comunista húngaro já dava sinais de esgotamento. A promessa de uma nova ordem — mais justa, mais eficiente, mais moderna — começava a circular como um sussurro entre os escombros do socialismo real. E é exatamente isso que Irimiás representa: a sedução de uma narrativa de renovação que, no fundo, é apenas mais uma forma de dominação. A vila, já em ruínas, não é apenas um espaço físico — é um microcosmo de um país (ou de um bloco inteiro) à deriva, onde a esperança se tornou mercadoria e a fé, uma moeda de troca. Irimiás chega como um arauto do futuro, mas seu discurso é vazio, circular, hipnótico. Ele promete reconstrução, mas o que oferece é controle. Ele fala em liberdade, mas exige obediência. Não é difícil ver aí um paralelo com a chegada do capitalismo às ex-repúblicas socialistas, onde a promessa de prosperidade muitas vezes se traduziu em desigualdade, desilusão e novas formas de exploração. Críticos como George Szirtes já apontaram que Krasznahorkai escreve sobre um mundo em que “a esperança é uma armadilha e a redenção é uma farsa”. E é exatamente isso que Irimiás encarna: a farsa da salvação, o discurso que se impõe não pela força, mas pela sedução. Ele não precisa ameaçar — basta que prometa. E os outros, exaustos, entregam-se. Krasznahorkai, com sua prosa labiríntica e hipnótica, não denuncia apenas o colapso de um sistema político. Ele expõe a fragilidade humana diante de qualquer narrativa que se apresente como inevitável. Irimiás poderia ser o capitalismo, o neoliberalismo, a religião, o populismo — qualquer força que se aproveite do vazio para se instalar como sentido. Ele é o ritual do fim, mas também o prenúncio de um novo ciclo de submissão. E talvez o mais perturbador seja isso: não há resistência, apenas adesão. Porque, no fundo, o que Sátántangó parece nos dizer é que o verdadeiro colapso não é o do regime — é o da vontade. E diante disso, qualquer Irimiás serve. Desde que prometa. Desde que fale bonito. Desde que nos poupe do silêncio. O senhor(a) é atualmente um(a) assinante gratuito(a) de Livraria Trabalhar Cansa. Para uma experiência completa, faça upgrade da sua assinatura. |
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quarta-feira, 5 de novembro de 2025
O forasteiro
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