Diário e rememoração, II Por Alexandre Sartório São Paulo, 21/03/2021. Assisti, ontem à noite, a Gritos e Sussuros, do Bergman, e The 15:17 to Paris, do Eastwood, duas preciosidades. Estou no último terço do Maltese Falcon, do Dashiell Hammett; notei nele que o narrador – em terceira pessoa, da perspectiva do detetive particular Sam Spade – se atem somente à superfície da realidade, às expressões faciais humanas, aos objetos (há alguns parágrafos em que ele lista os objetos, como cadernetas, canetas etc., que o detetive e um ou outro sujeito que o acompanha encontram em determinados cômodos). Com isto, a narrativa apresenta um mundo que só pode ser visto na superfície – concentrada antes de tudo nas pessoas, que se mostram, mais ou menos dissimuladas, nos gestos, na aparência e, principalmente, nas palavras e nos olhos, janela parcialmente cobertas por persianas, as clássicas persianas do film noir – que esconde uma essência envenenada pela traição, pela mentira, pela ganância desmedida – pelo mal. Sam Spade, cuja conduta também é marcada por esse mal, apalpa, tateia e tenta penetrar nessa superfície, por meio da sua percepção sagaz – que, limitados à superfície, acompanhamos, nós leitores, apenas quando se transmuta em palavras ou ações –, e de suas falas insinuantes ou rascantes. O narrador apresenta-nos o que veem os olhos e o que ouvem os ouvidos de Spade, e são os gestos e palavras deste que encontram as brechas na pele do real e, emergindo profundamente, nota-lhe os cantos obscuros, lançando sobre eles a iluminação da percepção corajosa, que pode ver coração do real que se confunde com o coração do mal. * p.s.: A nota misteriosa do concerto é a assistente de Spade, em quem, apesar de esperarmos uma traição – repetindo o exemplo de, bem, todas as outras personagens –, ele, ao fim e ao cabo, pode confiar. *** São Paulo, 26/03/2021. Hoje assisti a The Night of the Hunter, noir do Charles Laughton, que tem um quê Flannery O’Connor, principalmente na figura do vilão, o reverendo assassino Harry Powell, interpretado por Robert Mitchum, que, sempre em conversa com o Senhor, anda pelas estradas de West Virginia à caça de viúvas, com quem poderia casar-se, para roubar-lhes o dinheiro, e depois matar. A primeira grande parte do filme concentra-se na figura do preacher, para, na segunda metade, tornar-se a Odisseia das crianças que se haviam tornado órfãs, Pearl e John Harper, que se deixam levar pelo rio Ohio (as imagens são belíssimas e cheias do simbolismo das águas do batismo e da ressurreição, e do simbolismo de toda a criação – animais, o firmamento – que os acompanha e guarda) até que encontram a figura de tipo mariano – pouquíssimo ortodoxa, pois ela passa bom tempo com uma espingarda na mão –, Rachel Cooper, mulher durona e profundamente cristã, que encontrou no cuidado dos pequeninos de Deus sua grande missão. O filme é simplesmente magnífico. Nos últimos dias revi To Catch a Thief (Ladrão de Casaca) e vi pela primeira vez North by Northwest (Intriga Internacional), ambos do Hitchcock, um mestre de fato, e ambos com Cary Grant no papel principal. No primeiro, o ladrão redimido tenta não ser pego pela polícia, provando que não voltou à ativa, e por uma mulher, a herdeira americana Frances Stevens – e provar-se inocente não é nada comparado a resistir a Grace Kelly, a mulher mais linda que já passou por este mundo; ele termina o filme como inocente e a caminho da mais deleitosa das prisões. Ontem também assisti a Apocalypto, do Mel Gibson, filme magnífico. A cena do sacrifício humano aos deuses, realizado pelos maias, é fantástica, visualmente impecável. A jornada do protagonista, Jaguar Paw, jovem importante de uma pequena tribo que acaba destruída, e tendo seus habitantes mortos ou feitos escravos, pelos maias, de seu início quase idílico, à catástrofe da morte e da humilhação, ao fim em que ele, a mulher e os filhos entram na mata em busca de um novo começo – com os mensageiros do apocalipse daquele mundo, os europeus, chegando pelo mar – é memorável. Também continuo a ler A República, que comecei há uns dias. Não tenho disposição agora para comentar o livro. Certamente, ficar-me-á impressa na alma as concepções de Platão (pela boca de Sócrates) a respeito da música (que inclui melodia, harmonia e palavras, cantadas ou em discurso) e da ginástica na formação dos jovens. O senhor(a) é atualmente um(a) assinante gratuito(a) de Livraria Trabalhar Cansa. Para uma experiência completa, faça upgrade da sua assinatura. |
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quarta-feira, 29 de outubro de 2025
Diário e rememoração, II
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