Obrigado pela sua leitura! Todo ano é a mesma coisa. As expectativas sobre o passado e sobre o futuro têm uma sombra de pessimismo que alguns chamam de Apocalipse e outros chamam de profecia. Assim, precisamos de um novo guia que nos ajude a viver neste mundo repleto de caos, onde o piloto da embarcação parece que se despediu sem deixar aviso. Este guia é o filósofo Massimo Cacciari. Nascido em 1944, em Veneza, ele finalmente chega ao Brasil para meditar sobre as vantagens do abandono metafísico, graças à Editora Âyiné, que publicou cinco livros dele em disparada — o complexo O Poder Que Freia, os delicados Duplo Retrato e Três Ícones, e os inovadores Ocidente Sem Utopias (com Paolo Prodi), Gerar Deus, Labirinto Filosófico e Paraíso e Naufrágio. O estilo de Cacciari acompanha a sua peregrinação filosófica e política. Nas palavras de Alessandro Carrera, ele começou como um esquerdista radical, influenciado pela mistura explosiva da Escola de Frankfurt com Martin Heidegger (algo comum na cultura italiana da década de 1960). Depois, deixou de lado qualquer pretensão de ativismo ideológico para se tornar tanto um scholar fascinado pelas especulações neoplatônicas (evidentes nos longos tratados, Dell’Inizio, de 1990, e Della Cosa Ultima, de 2004) como uma figura pública que, independentemente de analisar a política da sua época, jamais permitiu que o intelecto contaminasse a ação efetiva. Tornou-se assim um exemplo único do homem de letras que não viveu isolado em seu gabinete e resolveu descobrir o consenso com a sociedade, sem depender da centralização federativa de poderes estatais, algo que lhe causou inimizades no Partido Comunista ao qual era filiado e que depois saiu por incompatibilidade. Esta atitude demonstra uma coerência de princípios, reforçada nos seus mandatos como prefeito de Veneza (1993–1999; 2005–2010), e também como representante da Itália no parlamento da União Europeia (1999–2000). O mesmo “labirinto filosófico” (título de um dos seus livros mais originais, lançado em 2014) é refletido no modo como Cacciari lida com as palavras. Aqui aplica-se o que Isaiah Berlin escreveu em um clássico ensaio sobre o estilo de Winston Churchill: “uma tentativa inspirada de revivescência”. Por mais que o uso de frases longas e trocadilhos em grego, alemão e latim, possa dar a impressão que Cacciari seria hermético, o leitor é obrigado a entender que o diagnóstico feito pelo filósofo é o de um mundo que vive numa completa transformação de tudo o que pensávamos existir, imerso em uma paralisia da qual ninguém parece saber como escapar, prestes a cair imediatamente no abandono de si mesmo. Esta tensão insuportável e insolúvel está articulada com perfeição estilística em O Poder Que Freia, cujo eixo principal é uma meditação teológica-política a lá Carl Schmitt. Somos jogados sem aviso dentro de um argumento inquietante: o tempo que vivemos (ou “o tempo que resta”, na maravilhosa frase de Giorgio Agamben, autor com quem Cacciari sempre dialoga em sua obra) é permeado pelo katechon. Esta expressão, retirada da Segunda Epístola aos Tessalonicenses e atribuída ao apóstolo Paulo, significa indistintamente “algo-alguém-alguma coisa” que detém um poder e que “contém-retém-freia-atrasa” o definitivo triunfo do Espírito da impiedade (apelidado entre nós de “O Anticristo”), travando assim “o seu aniquilamento pela força da boca do sopro do Senhor”. Aparentemente, presume-se que os poderes que exerceriam esta função seriam o do Estado (em especial, na variação imperial ou “globalista”) e o da Igreja, mas é neste ponto que Cacciari provoca uma reviravolta no seu raciocínio. Para ele, o Estado e a Igreja fazem igualmente parte do katechon; porém há, na verdade, um campo de forças e de tensões sobrepostas, que se acumulam e se dissolvem, às vezes de forma consciente, outras vezes de maneira imperceptível à consciência humana. Esta “rede”, fortemente conectada em seus nós górdios, dá a certeza de que o tempo que nos resta só será plenamente resolvido em um grande evento apocalíptico de proporções inimagináveis. Entretanto, por causa justamente do poder do katechon, que freia tal desenlace definitivo, Cacciari também mostra que as crises mundiais (políticas, sociais, espirituais) se tornam progressivamente permanentes, sem nenhuma solução evidente. O que era antes a síndrome de Prometeu, o herói revoltado contra os deuses (ou “o Deus”) que não o compreendem na sua agonia pelo conhecimento definitivo que explicaria tudo (o “gnosticismo” atormentado da modernidade), agora é a Era do irmão deste titã, Epimeteu, que abriu a caixa de sua esposa Pandora e esqueceu lá dentro a virtude da esperança, para algum dia (quem sabe?) encontrarmos alguma coisa, seja lá o que for. Massimo Cacciari não permite nenhum alento no seu percurso meditativo. As reclamações a respeito de seu estilo ficam dissolvidas na irrelevância quando percebemos que ele é perfeitamente coerente com a era da insecuritas na qual vivemos, descrita com a precisão de um entomologista. Em outras palavras: estamos todos nós imersos no vórtice do furacão, e, pior, só conseguimos ver isso como algo absolutamente negativo. Dessa forma, Cacciari faz o que a verdadeira filosofia deveria nos ensinar desde sempre: ele argumenta que a insecuritas, a insegurança, a incerteza, podem, sim, trazer a paralisia e a anomia — a stasis da guerra civil indefinida e indiferenciada — ao nosso redor; contudo, o reconhecimento de que vivemos em pleno katechon nos induz a concluir também que não há outra solução exceto aceitar tal cenário de impermanência — e que é fundamental fazermos algo a respeito. O incômodo provocado ao final da leitura de O Poder que Freia se deve talvez ao fato de que não queremos aceitar para nós mesmos que a esperança neste mundo significa vivermos no oceano do desespero, sem nenhum outro intermédio — seja o do Estado ou da Igreja — , e também porque não queremos admitir para quem vive das nossas instituições, aparentemente pluralistas e democráticas, que todas as mediações foram destruídas por completo. O “choque de civilizações” que surge entre a tensão do katechon e a chegada da utopia como forma política definitiva, provoca em Cacciari uma crítica rigorosa da visão de mundo marxista que antes defendia na sua juventude. No ensaio que compõe o livro Ocidente Sem Utopias, ele complementa a premissa de Paolo Prodi de que a voz profética de Marx aboliu qualquer possibilidade utópica porque criou a fusão definitiva da perfeição tecnológica-científica com a indignação moral — e, ao privilegiar a primeira para justificar seus erros monstruosos, destituiu a segunda de qualquer chance de verossimilhança no seu discurso. Assim, a utopia tornou-se não apenas um “novo Deus” e sim algo ainda mais precário: para o Ocidente, em especial o continente sufocado pelo projeto da União Europeia, ela é o “último Deus” que sobrou antes de qualquer vestígio do divino desaparecer diante dos nossos olhos. É por isso que Cacciari opta por refletir sobre o esvaziamento do sagrado nas suas análises a respeito das representações pictóricas e literárias de São Francisco de Assis e da Virgem Maria, como vemos em Duplo Retrato e Gerar Deus — ou das teofanias estéticas de Andrei Rublev, Piero Della Francesca e Johannes Van Eyck, conforme observa-se em Três Retratos. Segundo sua perspectiva, o abandono de Deus é simétrico a uma política abandonada que nos impede experimentar qualquer amostra de civilidade. Somente por meio da intuição concretizada pela Sophia na gestação de Maria ou na Pobreza de São Francisco que ilumina a Trindade de Rublev, a Ressurreição de Piero e os Arnolfini de Eyck, suportaremos com (alguma) coragem a pressão que é viver na era insegura do katechon. Não se trata de uma esperança, mas, para Cacciari, é a chance de algum início autêntico. Até lá, ficaremos suspensos na antiprofecia descrita nas ásperas palavras desse filósofo italiano, semelhantes aos versos de um outro europeu, o poeta português Fernando Pessoa: “Os deuses não morreram: o que morreu foi a nossa visão deles. Não se foram: deixamos de os ver”. Quem quiser colaborar com o meu trabalho, além do valor da assinatura desta newsletter pessoal, pode me ajudar por meio do pix: martim.vasques@gmail.comE quem quiser apertar o botão abaixo só para fazer a minha felicidade - e manter essa newsletter de modo mais profissional, be my guest: You're currently a free subscriber to Presto. For the full experience, upgrade your subscription. |
Total de visualizações de página
quarta-feira, 29 de outubro de 2025
A Política Do Abandono
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário