“Veja os rapazes e as moças,
andando pelo campus,
com suas pastas e óculos de estudantes
e eu lhe pergunto: Será
que eles estudam o que deveria ser
realmente estudado?”,
disse ela, enquanto penteava
os cabelos negros como as asas
quebradas de um corvo; e eu
perguntei: “E o que deveria ser
realmente estudado?”
E ela me respondeu, sem
titubiar: “A Morte”.
Foi então que achei muito
estranho ver tal beleza,
alimentada pela vida
que corria em suas ancas
e seios que, na palma da
minha mão, eram dons
de Deus para meu pobre
corpo, castigado pelo
prazer solitário, o mesmo que,
dizia meu pai, me levaria
à cegueira. Não fiquei cego, pois
vi nos seus olhos o exato
momento em que falou
o nome da indesejada — e vi,
além disso, o espectro
da dor atravessar seu rosto
e cravá-lo com firmeza
há tempos — tempos nos quais
os cometas e as estrelas
caíam na sua alma graças
ao peso da gravidade.
"A Morte?”, retruquei, tentando
entender este estranho evento.
O que a Morte tem a ver
com isso? Ela deixou o pente
de lado e virou-se para mim,
com os lábios contorcidos
de melancolia. “Nunca aprendeste
que a vida e a morte correm
lado a lado, não numa competição,
mas em um acordo mútuo,
no qual a primeira alimenta
a segunda, unindo o tempo
e o espaço, o corpo
e a alma, o sagrado
e o profano?
Tudo se esvai em perda,
mesmo as vitórias, as alegrias
e as saudades. Tudo o que sabemos
que existe é o fim e o bem
que ele nos dá”.
E o que seria este bem, querida?
“A superação deste fim
para algo maior, rumo a uma outra
história que ninguém contou:
a nossa própria
benevolência”.
Sorri da maneira mais sarcástica
possível — Como pode uma moça
deste tipo pensar desse modo?
“Não é o modo ou quem pensa
o que importa”. E o que importa?
Ela se levantou, foi à janela
e voltou seu rosto para mim. Não
disse uma única palavra; mas
depois de exatos dez minutos,
despiu-se, deitou o corpo nu
na cama, ao meu lado, pôs
minha mão esquerda no seu seio
direito, e deixou que sentisse
o sino do seu coração
e o eco da sua
dor.
E então suspirou a frase:
“Todos nós estamos morrendo
e nada sabemos sobre isso”.
E um sopro de vida
me atingiu dos pés à cabeça,
me fez levantar da cama,
ir à janela e ver os estudantes
que caminhavam pelo campus
e a benevolência do crepúsculo
me cobriu no fiapo de luz
que sempre— e ainda —
procurei.
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